terça-feira, 1 de setembro de 2015

Stefan Bellof: talento marcado pela tragédia

Carismático, rápido e talentoso. Estes são alguns dos muitos adjetivos usados para descrever o meteoro alemão chamado Stefan Bellof. Para quem não teve a oportunidade de vê-lo nas pistas, Bellof é mais um daqueles pilotos que, não fosse a vida interrompida bruscamente, poderia ter ido muito além do que sua curta carreira permitiu.

Da carreira de Bellof, tenho a sorte de manter arquivada apenas sua breve passagem pela Fórmula 1. Embora tradicionalmente a TV dê pouca importância a pilotos que normalmente ocupam o fundo do grid, em algumas provas, como em Mônaco e nos Estados Unidos (Dallas), ambas em 1984, foi possível notar que Bellof não era um piloto comum. Por isso, até hoje há quem diga que, muito antes de Michael Schumacher, Bellof tinha tudo para ser o primeiro campeão alemão na Fórmula 1. Quis o destino que a história do automobilismo alemão não fosse assim.

Nascido em 20 de novembro de 1957, na cidade de Giessen, o interesse pela velocidade surgiu muito cedo na vida de Stefan Bellof. Por influência do pai, ex-piloto de rali, Stefan começou a correr em 1973, aos 16 anos, no kart, junto com o irmão mais velho, Geörg, com quem dividiu as atenções pelas muitas vitórias durante os seis anos em que competiram juntos. Nesse período, conquistou os títulos no Campeonato Internacional de Luxemburgo, em 1976, e no Campeonato Alemão, em 1980.

De fato, os irmãos Bellof eram realmente muito bons no kart, de tal forma que dificilmente chegava-se a uma conclusão sobre qual dos dois era o melhor nas pistas. A dúvida acabou em 1980, quando, por falta de dinheiro para bancar a empreitada, a família decidiu investir apenas na carreira de Stefan, então estreante na Fórmula Ford 1600. No ano seguinte, uma nova investida na carreira o levou às vitórias na Fórmula Ford 2000, na Fórmula Super V e na Fórmula 3 Alemã, nesta última encerrando o ano em terceiro no campeonato, com um total de três vitórias em sete provas disputadas.

Competindo na Fórmula Ford 1600, no início dos anos 80

Em 1982, estreia na Fórmula 2, mostrando a que veio e vencendo as duas primeiras etapas do campeonato, em Silverstone e em Hockenheim - a primeira debaixo de chuva e a segunda largando na pole e marcando a melhor volta da prova. Apesar da boa impressão causada no início da temporada, Bellof não conseguiu nada melhor do que quatro pódios nas etapas seguintes, além de abandonar em seis provas, terminando o ano em quarto lugar na classificação geral, com 33 pontos.

No ano seguinte, continuou na Fórmula 2, desta vez com resultados ainda piores, terminando o campeonato com apenas um pódio, nove pontos e a nona colocação na tabela de classificação. Ainda em 1983, Bellof disputou também o Campeonato Mundial de Esporte Protótipos, pela Porsche, ao lado de Derek Bell, com quem venceu a primeira etapa, em Silverstone.

Na etapa seguinte, os Mil Quilômetros de Nürburgring, estabeleceu o recorde do circuito, com o tempo de 6min11s13, a bordo de um Porsche 956. Levando-se pelo entusiasmo, apesar dos apelos da equipe para ter cautela, Bellof sofreu um acidente enquanto liderava e teve de abandonar a prova. Ele venceria ainda em Fuji e em Kyalami, mas a inconsequência de Nürburgring custou a Bell três pontos no campeonato e a perda do título.

Ainda em 1983, Bellof fez seus primeiros testes na Fórmula 1, pela McLaren, no circuito de Silverstone, ao lado de Ayrton Senna e Martin Brundle, de quem viria a ser companheiro de equipe meses depois.

Ken Tyrrell acreditava ver em Stefan Bellof um novo Jochen Rindt. Ingenuidade ou exagero?

Em 1984, continuou competindo no Turismo pela Porsche, dividindo o calendário com a Fórmula 1, ocupando um dos cockpits da lendária Tyrrell. Àquela altura, Bellof já vinha chamando a atenção de vários chefes de equipe, a ponto de Ken Tyrrell, na ocasião da assinatura do contrato com o jovem alemão, declarar que tinha em seu time um novo Jochen Rindt, fazendo o mesmo com Martin Brundle, ao compará-lo a um novo Jackie Stewart.

Insanidade do Tio Ken? Pouco provável. Excesso de ingenuidade? Talvez. O próprio Brundle, em um artigo publicado no site da revista Autosport, parecendo reconhecer o exagero de Tyrrell, escreveu sobre o piloto alemão: "Não havia nada de atípico em Bellof. Ele era um verdadeiro piloto, que fazia grandes ultrapassagens, mas por isso se arriscava bastante."

Em 1984, dando um verdadeiro show nas ruas estreitas e sinuosas de Monte Carlo

No Mundial de Protótipos, Bellof venceu em Monza, Nürburgring, Spa-Francorchamps, Imola, Fuji e Sandown Park, obtendo também um quarto lugar em Mosport e um quinto em Brands Hatch. Estes resultados o levaram facilmente ao título daquele ano, com 11 pontos de vantagem sobre o compatriota Jochen Mass.

Na Fórmula 1, pouco podia se esperar de seu Tyrrell 012, um dos últimos carros a competir com os motores Ford Cosworth DFY aspirados, já obsoletos em comparação aos turbos usados pela maioria das equipes.

Apesar da evidente desvantagem, Bellof conseguia pontuar aqui e ali, somando nove pontos no total, incluindo os do terceiro lugar obtidos em Mônaco, depois de largar em último no grid e fazer uma corrida uma atuação memorável. Porém, o trabalho foi em vão. É que a Tyrrell tinha sido desclassificada e banida do campeonato, perdendo todos os pontos, por uso ilegal de lastro nos tanques de combustível e de componentes proibidos na gasolina.

Com a Porsche, Bellof estabeleceu uma parceria de muito sucesso nas provas de endurance

Para a temporada de 1985, a Tyrrell decidiu manter a dupla Brundle e Bellof, ainda competindo com os fraquíssimos Ford Cosworth, enquanto tentava um acordo para receber os motores turbo da Renault. Bellof continuou competindo com os protótipos, mantendo a parceria com a Porsche, ao lado do belga Thierry Boutsen. E continuava mostrando aos olheiros da Fórmula 1 que não era apenas mais um figurante no grid, marcando pontos em Portugal, debaixo de uma forte chuva, e nos Estados Unidos.

Estes resultados deram início a um namoro entre Bellof e a Ferrari, dando indícios suficientes para os boatos sobre a assinatura de um contrato de dois anos com o jovem alemão, a partir de 1986. Correr pela equipe italiana, no entanto, não passaria de um sonho que nunca viria a se realizar.

Momentos antes do acidente com o belga Jacky Ickx, no circuito de Spa-Francorchamps

No dia 1º de setembro, às 15h37, durante os 1000 Km de Spa-Francorchamps, Bellof deu show mais uma vez, largando na 22ª posição e rapidamente alcançando o segundo lugar. Na 78ª volta, ao disputar a liderança com o belga Jacky Ickx, na entrada da temida Eau Rouge, Bellof tenta uma ultrapassagem por fora. Segundos depois, perde o controle de seu Porsche 956B ao receber um toque de Ickx. Os dois rodam e saem da pista. Enquanto Ickx bate de traseira no guard-rail, sem grandes consequências, o Porsche de Bellof bate de frente no muro de concreto, a 240 Km/h, dando início a um pequeno incêndio.

O fim trágico de um jovem talento das pistas e mais outro duro golpe para o automobilismo alemão

Martin Brundle se lembra bem daquele dia: "Eu também estava disputando aquela prova pela Jaguar e vi quando o acidente aconteceu. Ken Tyrrell não queria que a gente corresse de protótipos, mas nós não estávamos ganhando o suficiente na Fórmula 1 e não podíamos nos dar ao luxo de parar entre cada corrida. Quanto ao acidente, não pareceu tão horrível quanto foi, a ponto de eu pensar que o Stefan tivesse morrido. Mas ficou aquele sentimento de 'o que vai acontecer da próxima vez?', igual ao que tivemos em Imola, em 1994."

Ickx sofreu apenas ferimentos leves, enquanto Bellof, desacordado, chegou a receber massagens cardíacas ainda na pista. A poucos metros do local do acidente, sua nova, Angelika Langner, assistia a tudo. "Assim que vi o Jochen Mass, pela expressão dele eu percebi imediatamente o que tinha acontecido. Ele não precisou me dizer nada. Todo mundo quis me consolar, mas eu só queria ficar sozinha naquele momento. Lembro que cheguei a tomar um remédio para me acalmar."

Convidados de Karl Senne no programa ZDF-Sportstudio, Bellof e Winkelhock estariam mortos em menos de um mês

Levado ao hospital, Bellof morreu dez minutos após o acidente. Uma semana depois, cerca de dez mil pessoas acompanharam o enterro do piloto, em sua cidade natal, que contou com a presença do patrão Ken Tyrrell e dos colegas Jochen Mass e Hans-Joachim Stuck, além de representantes da equipe Porsche. Foi o segundo golpe que o automobilismo sofreu em menos de um mês, três semanas após a morte igualmente prematura de Manfred Winkelhock. E dessa maneira, o país perdeu um dos mais promissores talentos já vistos nas pistas.