sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Entrevista: Sebastian Ertl

Harald ErtlPara muitos fãs aficionados por automobilismo, o austríaco Harald Ertl é quase sempre lembrado por sua vasta barba e o imenso bigode, mais até do que por suas habilidades na pista, onde obteve algum sucesso durante os anos em que competiu em carros de turismo.

Na Fórmula-1, foram apenas 19 corridas, disputadas entre 1975 e 1978 (em 1980, Ertl não se qualificou para a única corrida que tentou disputar), pelas equipes Warsteiner Brewery, Hesketh, Ensign e ATS, sem obter grandes resultados.

Desse período, seu momento mais marcante aconteceu durante o GP da Alemanha de 1976, em Nürburgring, quando parou seu carro no meio da pista e, junto com Guy Edwards, Brett Lunger e Arturo Merzario, se embrenhou no meio de uma Ferrari em chamas para salvar da morte o compatriota Niki Lauda, que sairia dali com marcas que até hoje carrega em seu rosto.

Depois da Fórmula-1, Ertl dedicou-se exclusivamente ao jornalismo esportivo, onde atuava antes mesmo de se tornar piloto, retornando às pistas somente em 1982, quando planejava disputar a Renault 5 Turbo Cup.

Ertl morreria no dia 7 de abril daquele ano, quando o avião em que viajava com a família durante o feriado de Páscoa sofreu uma pane no motor e caiu, rumo a Sylt, ao norte da Alemanha. Além de Harald, também morreram seu cunhado Jörg (que pilotava o avião), sua irmã, Gabi, e sua sobrinha, Alexandra. Embora gravemente feridos, sua esposa, Vera, e seu filho, Sebastian, sobreviveram ao acidente.

27 anos depois...

Recentemente, tive a sorte de encontrar o Sebastian em um dos muitos fóruns sobre Fórmula-1 que existem por aí, justamente em um tópico sobre pilotos austríacos. Feito o primeiro contato, por e-mail, sugeri a ele uma pequena entrevista, para que ele pudesse contar um pouco sobre as lembranças que ainda tem de seu pai e sua paixão pelo automobilismo, no que ele topou imediamente. As respostas você confere agora, com exclusividade para o Almanaque da Fórmula-1.

Sebastian ErtlO que você sente quando vê as pessoas se referindo a seu pai como um dos homens corajosos que salvaram Niki Lauda do terrível acidente em Nürburgring?

Boa pergunta. Nunca atentei para o fato de as pessoas se lembrarem do meu pai dessa maneira. Fico bastante orgulhoso quando leio alguma coisa sobre isso, mas para mim ele foi apenas o meu pai. Hoje, entendo que foi um momento importante para a Fórmula-1, mas não creio que haja tantas pessoas que ainda se lembrem disso.

De que forma ele é conhecido hoje na Áustria em termos de popularidade, principalmente em Zell am See, onde ele nasceu?

Não sei dizer. A última vez em que estive em Zell am See ou até mesmo na Áustria foi em 1996, quando meu avô morreu.

E que lembranças você tem hoje de seu pai, levando em consideração que você tinha apenas três anos quando ele se foi?

É difícil dizer, pois são apenas fragmentos de determinadas situações. São suficientes para eu nutrir algum sentimento por ele, mas não para falar alguma coisa a respeito disso. Lembro de uma vez em que ele estava trocando uma lâmpada e eu liguei o interruptor. Ele ficou bastante zangado. :-)

O que aconteceu exatamente no dia do acidente?

Foi a bomba do combustível que congelou e o motor simplesmente parou de funcionar. Meu tio ainda tentou aterrissar, mas não havia espaço suficiente e estava tudo congelado.

Alguma vez você pensou em ser piloto, seguindo os passos de seu pai? O que sua mãe pensou a respeito disso?

Sim! Os carros e tudo que tem um motor são minha grande paixão. Tanto que minhas três primeiras palavras foram "papai", "mamãe" e "Porsche". Mas depois do acidente minha mãe tentou se livrar dessas lembranças. E quando eu já tinha idade suficiente para discutir este assunto com ela, já estava muito velho para começar a correr.

Vera ErtlQual é a história mais fantástica ou engraçada que sua mãe tem de seu pai, dos tempos em que ele corria?

Ela diz que aquela época era demais, mas não havia exatamente histórias engraçadas. Tem uma que ela me conta que eu acho mais embaraçosa do que engraçada. Foi durante uma corrida de DTM. Eu era pequeno e estava sentado no teto do nosso motorhome. A cada volta, eu gritava "Hans Heyer!", que era o nome do principal rival do meu pai naquele campeonato. Talvez por que o nome dele fosse mais fácil de pronunciar do que "Harald Ertl"... Ah! Tem uma outra que ela conta e que é realmente engraçada! Foi em Hockenheim, por volta de 1975. A Warsteiner era a principal patrocinadora da equipe do meu pai e tinha vários barris de cerveja guardados dentro de um caminhão. Nesse dia estava muito quente, não havia muita água e todo mundo estava procurando algo para beber. Como a equipe estava precisando de pneus novos e não tinha muita grana, adivinhe o que aconteceu. Distribuíram as cervejas em troca dos pneus. Deve ter sido um fim de semana bem divertido. :-)

Hoje, 27 anos depois, sua família ainda mantém algum contato ou amizade com pessoas ligadas à Fórmula-1?

Não, e eu fico triste por isso. Mas como eu expliquei antes, minha mãe quis esquecer tudo.

Sua família ainda guarda de lembrança algum objeto de seu pai da época em que ele corria?

Pouca coisa. Alguns capacetes e troféus e um monte de fotos. Os capacetes e os troféus estão guardados na garagem e as fotos estão espalhadas por aí. Eu tenho um desenho bem bacana em cima da lareira e minha mãe tem algumas fotos sobre a mesa e nas paredes da casa dela.

Embora não tenha se tornado um piloto, você hoje tem algum envolvimento com o automobilismo?

Infelizmente, não. Exceto pelo fato de gastar uma boa grana em carros extravagantes.

Quais são seus pilotos e equipes favoritos na Fórmula-1 atualmente e o que você espera desta temporada?

Acho que Michael Schumacher é um dos melhores pilotos que a Fórmula-1 já viu. No momento, não tenho nenhum favorito. São caras bons, mas nenhum que seja considerado extraordinário. Gosto da Ferrari, por causa da tradição, mas em geral a Fórmula-1 tem sido perfeita demais para me atrair. Não tem mais o espírito das corridas. Tem muito dinheiro e tecnologia envolvidos e nenhuma diversão. São 20 carros, um atrás do outro, e nenhuma ação. Mas com a introdução do KERS, pode ser que tenhamos uma temporada interessante.

* Créditos das Fotos: Forix (Harald Ertl), Arquivo pessoal (Sebastian Ertl) e Motorsport Magazin (Vera Ertl)

16 comentário(s):

Rianov Albinov disse...

Beleza cara!

Ainda não tive tempo de ler, mas quando der, certamente o farei.

Abraços

Claudia disse...

Well done! =)

Speeder_76 disse...

Isto não é bom. Isto é optimo! Tenho que recomendar isto ao pessoal quando tiver tempo. Estou a meio de "obras de construção" de um jornal...


Mas posso dizer que é um pouco triste ver que a mãe dele quis esquecer das coisas. O que faz agora o Sebastian?

Anônimo disse...

Legal a entrevista. Repare no macacão do Ertl o patrocinio da Zakspeed, que teria a sua propria equipe quase 10 anos depois.

L-A. Pandini disse...

Muito boa! Parabéns pelo furo. Não é comum encontrar coisas assim por aí.

Abração! (LAP)

Becken Lima - F1 Around disse...

Grande trabalho, Alexandre.

Ótima entrevista que entrega conteúdo original, bem pensado e bem feito.

Estou devendo aquela resenha sobre o "Almanaque", mas na semana que vem escrevo, prometo.

Rianov Albinov disse...

Agora sim deu tempo de ler!!

Muito legal isso Alexandre. Tá de parabéns.

Do Ertl, me veio uma lebrança engraçada agora. Ele tentou classificar para o GP da Itália de 78 por duas equipes diferentes, a ATS e a Ensign. Falhou nas duas.

Um abraço e parabéns pela iniciatíva.

Rianov

Daniel Médici disse...

Bravo!

Fantástica a entevista e um ótimo entrevistado. "Em geral a Fórmula-1 tem sido perfeita demais para me atrair", não é todo mundo que consegue aspas desse quilate.

Carlos H. Moyna disse...

Muito bom! Queria estar na fila dos barris de Warsteiner. :-)

Alexandre Carvalho disse...

Claudinha, obrigado pela força. :-)

Speeder, que bom que você gostou e obrigado pela divulgação no Continental Circus.

Pandini, para mim é uma honra ter você entre meus leitores. Obrigado mesmo.

Grande Becken! Mais uma vez, obrigado pela visita. Fico feliz que você tenha gostado. Quanto à resenha, estamos aí caso você precise de alguma coisa. Obrigado mesmo.

Rianov, obrigado pelo link. E continue sempre nos brindando com aquelas informações que você tira do fundo do baú (a melhor delas, sem dúvida, foi a do filho da Margareth Thatcher na F1).

Daniel, essa frase do Sebastian é um sinal de que a F1 está enfrentando uma espécie de sinal dos tempos, não?

Moyna, velho irlandês. Fico imaginando o que você faria se estivesse na tal corrida de Hockenheim, fazendo de tudo para filar uns goles de Warsteiner, hehehe.

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Grande Alexandre, excepcional o material! E achei curioso o fato do Sebastian parecer tao distante do eixo austríaco da família. A mae era da Alemanha, é isso?

Obrigado pelo material de grande valor!

Abs!
Ico

Alexandre Carvalho disse...

Oi, Ico! É uma honra receber sua visita aqui no blog. Quanto à Vera, não sei se ela é alemã, mas é uma possibilidade, já que ele diz que não pisa na Áustria desde 1996. Ou então eles se mudaram para a Alemanha logo após a morte do Harald.

Alexandre Carvalho disse...

Speeder, respondendo à sua pergunta, o Sebastian trabalha como consultor na área de gerenciamento.

Ylan Marcel disse...

Bigode bunito, rs...

José António disse...

Só hoje me apercebi desta entrevista (mais vale tarde do que nunca).
Excelente! Ainda por cima, uma entrevista do filho do heroi que salvou o meu piloto preferido na F1!
Muito bom!
Abraço
José

Anônimo disse...

Muito legal e bela a foto. Meu bigode seguirá este caminho.