quarta-feira, 1 de setembro de 2010

25 anos sem Stefan Bellof

Carismático, rápido e talentoso. Estes são alguns dos muitos adjetivos usados para descrever o meteoro alemão chamado Stefan Bellof. Para quem não teve a oportunidade de vê-lo nas pistas, Bellof é mais um daqueles pilotos que, não fosse a vida interrompida bruscamente, poderia ter ido muito além do que sua curta carreira permitiu. Por isso, até hoje há quem diga que, muito antes de Michael Schumacher, Bellof tinha tudo para ser o primeiro campeão alemão na Fórmula 1. Infelizmente, quis o destino que não fosse assim.

Da carreira de Bellof, conheço e tenho arquivada apenas sua breve passagem pela Fórmula 1. Embora tradicionalmente a TV dê pouca importância a pilotos que normalmente ocupam o fundo do grid, em algumas provas, como em Mônaco e nos Estados Unidos (Dallas), ambas em 1984, foi possível notar que Bellof não era um piloto comum. Comparando com a Fórmula 1 atual, arrisco colocá-lo no mesmo patamar de Sebastian Vettel, cujo talento se fez notar tão rapidamente quanto no caso de Bellof, levando-se em consideração as circunstâncias de cada época.

A estreia no kart

Nascido a 20 de novembro de 1957, na cidade de Giessen, o interesse pela velocidade surgiu muito cedo na vida de Stefan Bellof. Por influência do pai, ex-piloto de rali, Stefan começou a correr em 1973, aos 16 anos, no kart, junto com o irmão mais velho, George, com quem dividiu as atenções pelas muitas vitórias durante os seis anos em que competiram juntos. Nesse período, conquistou os títulos no Campeonato Internacional de Luxemburgo, em 1976, e no Campeonato Alemão, em 1980.

De fato, os irmãos Bellof eram realmente muito bons no kart, de tal forma que dificilmente chegava-se a uma conclusão sobre qual dos dois era o melhor nas pistas. A dúvida, porém, acabou em 1980, quando, por falta de dinheiro para bancar a empreitada, a família decidiu investir apenas na carreira de Stefan, então estreante na Fórmula Ford 1600. No ano seguinte, uma nova investida na carreira o levou às vitórias na Fórmula Ford 2000, na Fórmula Super V e na Fórmula 3 Alemã, nesta última encerrando o ano em terceiro no campeonato, com um total de três vitórias em sete provas disputadas.

Competindo na Fórmula Ford 1600, no início dos anos 80.

Em 1982, estreia na Fórmula 2, mostrando a que veio e vencendo as duas primeiras etapas do campeonato, em Silverstone e em Hockenheim - a primeira debaixo de chuva e a segunda largando na pole e marcando a melhor volta da prova. Apesar da boa impressão causada no início da temporada, Bellof não conseguiu nada melhor do que quatro pódios nas etapas seguintes, além de abandonar em seis provas, terminando o ano em quarto lugar na classificação geral, com 33 pontos.

No ano seguinte, continuou na Fórmula 2, desta vez com resultados ainda piores, terminando o campeonato com apenas um pódio, nove pontos e a nona colocação na tabela de classificação. Ainda em 1983, Bellof disputou também o Campeonato Mundial de Esporte Protótipos, pela Porsche, ao lado de Derek Bell, com quem venceu a primeira etapa, em Silverstone.

Na etapa seguinte, os Mil Quilômetros de Nürburgring, estabeleceu o recorde do circuito, e que se mantém até hoje, com o incrível tempo de 6min11s13, a bordo de um Porsche 956. Levando-se pelo entusiasmo, apesar dos apelos da equipe, Bellof sofreu um acidente enquanto liderava e teve de abandonar a prova. Ele venceria ainda em Fuji e em Kyalami, mas a inconsequência de Nürburgring custou a Bell três pontos no campeonato e a perda do título.

Ainda em 1983, no final daquele ano, Bellof fez seus primeiros testes com um carro de Fórmula 1, pela McLaren, no circuito de Silverstone, ao lado de Ayrton Senna e Martin Brundle, de quem viria a ser companheiro de equipe meses depois.

Abrindo as portas da Fórmula 1

Ken Tyrrell via em Bellof um novo "Jochen Rindt". Exagero?

Em 1984, continuou competindo no Turismo pela Porsche, mas agora com um pezinho na Fórmula 1, pela lendária equipe Tyrrell. Àquela altura, Bellof já vinha chamando a atenção de vários chefes de equipe, a ponto de Ken Tyrrell, na ocasião da assinatura do contrato de Bellof, declarar que tinha em seu time um novo Jochen Rindt, fazendo o mesmo com Martin Brundle, ao compará-lo a um novo Jackie Stewart.

Insanidade do Tio Ken? Pouco provável. Excesso de ingenuidade? Talvez. O próprio Brundle, em um artigo publicado na semana passada no site da revista Autosport, parecendo reconhecer o exagero de Tyrrell, escreveu sobre o piloto alemão: "Não havia nada de atípico em Bellof. Ele era um verdadeiro piloto, que fazia grandes ultrapassagens, mas por isso se arriscava bastante."

Em 1984, dando um verdadeiro show nas ruas de Monte Carlo.

No Mundial de Protótipos, Bellof venceu em Monza, Nürburgring, Spa-Francorchamps, Imola, Fuji e Sandown Park, obtendo também um quarto lugar em Mosport e um quinto em Brands Hatch. Estes resultados o levaram facilmente ao título daquele ano, com 11 pontos de vantagem sobre o compatriota Jochen Mass.

Na Fórmula 1, pouco podia se esperar de seu Tyrrell 012, um dos últimos carros a competir com os obsoletos motores Ford Cosworth DFY aspirados em comparação aos turbos usados pela maioria das equipes.

Apesar da evidente desvantagem, Bellof conseguia pontuar aqui e ali, somando nove pontos no total, incluindo os do terceiro lugar obtidos em Mônaco, depois de largar em último no grid e fazer uma corrida uma atuação memorável. Porém, o trabalho foi em vão. É que a Tyrrell tinha sido desclassificada e banida do campeonato, perdendo todos os pontos, por uso ilegal de lastro nos tanques de combustível e de componentes proibidos na gasolina.

Um triste destino

Com a Porsche, Bellof teve uma parceria de muito sucesso.

Para a temporada de 1985, a Tyrrell decidiu manter a dupla Brundle e Bellof, ainda competindo com os fraquíssimos Ford Cosworth, enquanto tentava um acordo para receber os motores turbo da Renault. Bellof continuou competindo com os Esporte Protótipos, mantendo a parceria com a Porsche, ao lado do belga Thierry Boutsen, mas continuava mostrando aos olheiros da Fórmula 1 que não era apenas mais um figurante no grid, marcando pontos em Portugal, debaixo de uma forte chuva, e nos Estados Unidos.

Estes resultados deram início a um namoro entre Bellof e a Ferrari, dando inícios suficientes para que se especulassem a respeito da assinatura de um contrato de dois anos com o jovem alemão, a partir de 1986. Correr pela equipe italiana, no entanto, não passaria de um sonho muito distante, e que nunca viria a se realizar.

Momentos antes do acidente com o belga Jacky Ickx, em Spa-Francorchamps.

No dia 1º de setembro, às 15h37, durante os 1000 Km de Spa-Francorchamps, Bellof mais uma vez deu show, largando na 22ª posição e rapidamente alcançando o segundo lugar.

Na 78ª volta da prova, ao disputar a liderança com o belga Jacky Ickx, na entrada da temida Eau Rouge, Bellof tenta uma ultrapassagem por fora. Segundos depois, ele perde o controle de seu Porsche 956B ao ser tocado de forma imprudente pelo carro de Ickx. Os dois rodam e saem da pista. Enquanto Ickx bate de traseira no guard-rail, sem grandes consequências, o Porsche de Bellof vai direto no muro, a 240 Km/h, dando início a um incêndio.

O fim trágico de um jovem talento das pistas.

Martin Brundle se lembra bem daquele dia:

"Eu também estava disputando aquela prova pela Jaguar e vi quando o acidente aconteceu, na descida da La Source. Ken Tyrrell não queria que a gente corresse de protótipos, mas nós não estávamos ganhando o suficiente na Fórmula 1 e não podíamos nos dar ao luxo de parar entre cada corrida. Quanto ao acidente, não pareceu tão horrível quanto foi, a ponto de eu pensar que o Stefan tivesse morrido. Mas ficou aquele sentimento de 'o que vai acontecer da próxima vez?', igual ao que tivemos em Imola, em 1994."

Socorrido, Bellof é levado direto para o hospital, onde morre dez minutos após o acidente. Era o segundo golpe que a Alemanha sofria no automobilismo, três semanas após a morte prematura de Manfred Winkelhock. E dessa maneira, perdia um dos mais promissores talentos já vistos nas pistas.

* Créditos das Fotos: Rainer Nyberg, Rainer W. Schlegelmilch e Stefan Bellof Website (outras fotos são de autores desconhecidos)

Para saber mais:

- Os números de Stefan Bellof na Fórmula 1 (Chicane F1)
- Entrevista em alemão com a namorada de Bellof, Angelika, 25 anos depois (Bild)