Com exceção dos fãs que acompanham a Fórmula 1 sem se deixar levar por explosões passionais, não é difícil constatar que, para o torcedor comum, que normalmente só consegue demonstrar interesse por um esporte caso a vitória de um compatriota esteja garantida, a Fórmula 1 só "perde a graça" (como eles mesmos gostam de dizer) em momentos como esse. Do contrário, caso a Ferrari tivesse invertido as posições, com Massa faturando mais uma vitória com Alonso cedendo-lhe a primeira posição, a gritaria teria bem menos decibeis. Não seria esta a primeira vez.
Voltando ao que interessa. A equipe errou? Claro que sim. Mas é bom que se lembre que jogos de equipe sempre fizeram parte da Fórmula 1. A diferença é que, em circunstâncias normais, as coisas sempre são feitas "na moita", por meio de cógigos que, às vezes, a gente até consegue identificar depois de anos acompanhando a principal categoria do automobilismo mundial. Categoria esta que, mesmo com o histórico de trambiques e maracutaias que envolvem pilotos e chefes de equipe na decisão de uma corrida, conquista cada vez mais fãs ao redor do mundo.
A Ferrari, contrariando a prática comum - mas não justificável -, preferiu chutar o balde, sem se importar com as consequências que algo tão escancarado pudesse trazer. Efeito da coleção de mimos que sempre recebeu da FIA? Bem provável. Para piorar, esquivou-se da responsabilidade, não assumindo o que fez (certamente achando que somos todos idiotas) e jogando a bomba nas mãos de Felipe Massa, que teve que se defender sozinho do indefensável.
Por mais que alguns insistam na ideia de que a equipe italiana tem alguma cisma com os brasileiros, de vítima, Massa não tem é nada. Foi tão leviano quanto sua equipe, assim como Fernando Alonso, que, seguindo a cartilha tantas vezes posta em prática por Schumacher, parece não ter aprendido nada com os efeitos colaterais do escândalo "Cingapuragate".
De Alonso, que apesar de tudo ainda é o melhor piloto em atividade, confesso que uma atitude como essa não me espanta nem um pouco. De Massa, porém, eu esperava no mínimo que fosse superior e não se sujeitasse a um papelão desses. Enfim, que tivesse colhões e mandasse todos às favas. Ele tinha a opção de simplesmente dizer "não" e ignorar as ordens da Ferrari, pois não há emprego no mundo que justifique um esportista entrar nesse jogo. Mas preferiu acatá-las e, imediatamente, assinar o atestado de covarde perante todo o mundo, diante das câmeras.
Caso se rebelasse, haveria consequências? Sim, haveria. E, provavelmente, da mesma forma como aconteceu em 2002, na Sauber, quando recusou-se a ceder posição para Nick Heidfeld no GP da Europa, em Nürburgring, e foi demitido ao final da temporada. Mas ao menos sairia por cima e respeitado. E isso, apesar de todo mundo saber que na Fórmula 1 o buraco é bem mais embaixo, tem um valor maior do o que qualquer contrato.
Não é apenas a Fórmula 1 que sai perdendo, mas também os torcedores e amantes do automobilismo em todo o mundo, que deixam de acompanhar um esporte em sua essência e passam a ser testemunhas de interesses comerciais com consequências nefastas. Ao invés de pilotos fazendo de tudo para mostrar na pista o melhor que o talento de cada um pode permitir, somos obrigados a engolir, em frente à TV ou sentado em uma arquibancada, um show patético de marionetes, protagonistas de um circo cujos palhaços, infelizmente, somos nós.





Jornalista, carioca e desde 2005 vivendo em São Paulo. Acompanha a Fórmula-1 desde o final dos anos 70. Hoje, faz questão de recordar os melhores momentos da principal categoria do automobilismo mundial.


