terça-feira, 27 de julho de 2010

Felipe Massa: escudeiro, sim, senhor!

Depois de acompanhar um pouco das discussões que tomaram conta da internet e das mesas de bar no domingo passado, resolvi assistir à gravação do polêmico GP da Alemanha. E o desfecho só não foi pior do que a trapalhada de 2002, na Áustria, quando Ferrari, Michael Schumacher e Rubens Barrichello protagonizaram o episódio mais vergonhoso na história da Fórmula 1.


Com exceção dos fãs que acompanham a Fórmula 1 sem se deixar levar por explosões passionais, não é difícil constatar que, para o torcedor comum, que normalmente só consegue demonstrar interesse por um esporte caso a vitória de um compatriota esteja garantida, a Fórmula 1 só "perde a graça" (como eles mesmos gostam de dizer) em momentos como esse. Do contrário, caso a Ferrari tivesse invertido as posições, com Massa faturando mais uma vitória com Alonso cedendo-lhe a primeira posição, a gritaria teria bem menos decibeis. Não seria esta a primeira vez.

Voltando ao que interessa. A equipe errou? Claro que sim. Mas é bom que se lembre que jogos de equipe sempre fizeram parte da Fórmula 1. A diferença é que, em circunstâncias normais, as coisas sempre são feitas "na moita", por meio de cógigos que, às vezes, a gente até consegue identificar depois de anos acompanhando a principal categoria do automobilismo mundial. Categoria esta que, mesmo com o histórico de trambiques e maracutaias que envolvem pilotos e chefes de equipe na decisão de uma corrida, conquista cada vez mais fãs ao redor do mundo.

A Ferrari, contrariando a prática comum - mas não justificável -, preferiu chutar o balde, sem se importar com as consequências que algo tão escancarado pudesse trazer. Efeito da coleção de mimos que sempre recebeu da FIA? Bem provável. Para piorar, esquivou-se da responsabilidade, não assumindo o que fez (certamente achando que somos todos idiotas) e jogando a bomba nas mãos de Felipe Massa, que teve que se defender sozinho do indefensável.

Por mais que alguns insistam na ideia de que a equipe italiana tem alguma cisma com os brasileiros, de vítima, Massa não tem é nada. Foi tão leviano quanto sua equipe, assim como Fernando Alonso, que, seguindo a cartilha tantas vezes posta em prática por Schumacher, parece não ter aprendido nada com os efeitos colaterais do escândalo "Cingapuragate".

De Alonso, que apesar de tudo ainda é o melhor piloto em atividade, confesso que uma atitude como essa não me espanta nem um pouco. De Massa, porém, eu esperava no mínimo que fosse superior e não se sujeitasse a um papelão desses. Enfim, que tivesse colhões e mandasse todos às favas. Ele tinha a opção de simplesmente dizer "não" e ignorar as ordens da Ferrari, pois não há emprego no mundo que justifique um esportista entrar nesse jogo. Mas preferiu acatá-las e, imediatamente, assinar o atestado de covarde perante todo o mundo, diante das câmeras.

Caso se rebelasse, haveria consequências? Sim, haveria. E, provavelmente, da mesma forma como aconteceu em 2002, na Sauber, quando recusou-se a ceder posição para Nick Heidfeld no GP da Europa, em Nürburgring, e foi demitido ao final da temporada. Mas ao menos sairia por cima e respeitado. E isso, apesar de todo mundo saber que na Fórmula 1 o buraco é bem mais embaixo, tem um valor maior do o que qualquer contrato.

Não é apenas a Fórmula 1 que sai perdendo, mas também os torcedores e amantes do automobilismo em todo o mundo, que deixam de acompanhar um esporte em sua essência e passam a ser testemunhas de interesses comerciais com consequências nefastas. Ao invés de pilotos fazendo de tudo para mostrar na pista o melhor que o talento de cada um pode permitir, somos obrigados a engolir, em frente à TV ou sentado em uma arquibancada, um show patético de marionetes, protagonistas de um circo cujos palhaços, infelizmente, somos nós.

domingo, 25 de julho de 2010

Sebastian Vettel, o bad guy da Fórmula 1?

Esta semana, a revista tem como destaque:

Jacques Villeneuve quer voltar à Fórmula 1 por meio de um acordo com a ex-equipe de GP2 Durango, podendo usar um carro fabricado pela Dallara. E uma curiosidade: em 1982, seu pai, Gilles, estava planejando montar uma equipe para o ano seguinte, tendo Jody Scheckter seria o chefe de equipe e também o responsável por conseguir patrocínio para o time.

A estabilidade da Red Bull posta à prova com os episódios de Silverstone, culminando com a declaração de Mark Webber via rádio, após vencer o GP da Inglaterra, insinuando um favorecimento na equipe em prol de Sebastian Vettel.

Confirmação de algumas duplas de pilotos para 2011 (McLaren, Mercedes, Red Bull, Ferrari e Toro Rosso) e os possíveis nomes para os outros times, sendo a Hispania a única incógnita. Atenção para a provável ida de Timo Glock, Heikki Kövalainen ou Adrian Sutil para ocupar o lugar de Vitaly Petrov na Renault, bem como a possível ida de Karun Chandok para a Lotus.

A revista aponta também tempos difíceis para um piloto estrear na Fórmula 1. Com os testes agora restritos apenas à pré-temporada, os novos pilotos entram para a categoria com pouca quilometragem, obrigando boa parte das equipes a renovar seus contratos para que tenham mais experiência com o mesmo carro. Agora, trocar de piloto de um ano para o outro em busca de novos talentos, por incrível que pareça, tornou-se um negócio arriscado.

Vale muito a pena ler a coluna de David Coulthard sobre toda a novela Red Bull. Para ele, tudo não passa de uma tremenda tempestade em copo d'água. É o que eu penso também. Outro destaque é a reportagem sobre Sebastian Vettel, que mostra um pouco do que se passa pela cabeça deste jovem alemão quando o assunto é automobilismo. Para ele, a única coisa que importa é vencer o campeonato.

domingo, 18 de julho de 2010

A estreia de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1

Há exatos 40 anos, o Brasil dava um novo passo em sua trajetória no esporte a motor. No dia 18 de julho de 1970, no GP da Inglaterra, Emerson Fittipaldi fazia sua estreia na Fórmula 1, tornando-se, depois de Chico Landi, um dos principais incentivadores na carreira de muitos jovens pilotos que viriam a surgir nos anos seguintes. Ao mesmo tempo, foi ele também que colocou a principal categoria do automobilismo esportivo mundial na boca do povo, perdendo somente para o futebol.

A história de Emerson na Fórmula 1 começou a se desenhar poucos meses antes, quando o piloto brasileiro, que vinha se destacando pelos resultados nas categorias de base por onde passou (Fórmula Ford, Fórmula 2 e Fórmula 3), teve a sorte - somada a uma grande dose de talento - de atrair a atenção de Colin Chapman, dono da lendária Lotus e um dos maiores gênios que já passaram pela Fórmula 1.

Além da pouca idade com a qual Emerson vinha se destacando no automobilismo europeu (23 anos na época), ele também se destacava pela rapidez de aprendizado, característica esta que seu irmão, Wilsinho, conhecia muito bem: "O que mais me impressiona é o talento natural que o Emerson tem para pilotar. Pilotos como eu, Pace, Piquet ou Peterson, por exemplo, podem até andar rápido, mas temos de trabalhar muito mais. O que o Emerson aprendia em três voltas eu levava seis ou mais para assimilar."

Emerson chegou a ser sondado por Frank Williams, logo após a morte de Piers Courage, no GP da Holanda daquele ano, mas foi convencido por seu amigo Chico Rosa a segurar a ansiedade e esperar por uma oferta melhor, de uma equipe melhor estruturada. E a Lotus, na época, era essa equipe, aquela com a qual todo piloto sonhava um dia em correr.

O convite irrecusável

Dias depois, um executivo da Lotus, Dick Scamell, procurou Emerson e o encontro com o chefe foi, enfim, acertado. Após a conversa - e já com um contrato assinato -, dias depois a Lotus confirmou o primeiro teste do piloto brasileiro, no dia 8 de junho, em Silverstone. A máquina a ser testada: um Lotus 49C, com o qual Jochen Rindt vencera o GP de Mônaco no mês anterior.

Na pista, sob os olhares atentos de Chapman e Rindt, Emerson não fez feio, embora tivesse percebido logo de cara a má vontade do piloto austríaco com aquela situação, tendo sido obrigado a testar um carro velho para deixá-lo em boas condições para o novato que acabara de chegar à equipe. No início, Emerson sentiu que o carro estava saindo de frente, no que Rindt aconselhou: "Senta a bota que o carro acerta!". E Emerson obedeceu. A partir daí, os tempos foram baixando volta a volta, até marcar seu melhor tempo em 1min22s6. No fim do teste, Chapman baixou a ordem: "Você estreia em Brands Hatch."

A Fórmula 1 abre as portas para o Brasil


E chega o grande dia. Tanto nos treinos quanto na corrida, Emerson teve um desempenho à altura de um estreante, mas o suficiente para mostrar o quanto era rápido e determinado, o que acabou lhe garantindo o oitavo lugar da prova, depois de ter largado em antepenúltimo.

Até a 39ª volta, seu ritmo não era dos melhores, sendo sempre dois ou três segundos mais lento que os líderes. A partir daí, começou a pisar forte, alcançando a 12ª posição, enquanto Jack Brabham seguia na liderança. Na 55ª volta, já era o oitavo colocado, aproveitando-se do abandono de três pilotos e da ultrapassagem sobre François Cévert.

Duas voltas depois, quando estava em condições de ganhar mais posições, em uma disputa com Graham Hill e Chris Amon, perde a quarta marcha - situação esta que só foi piorando nas voltas seguintes - e Cévert recupera a posição de Emerson.


Com isso, o brasileiro decide não se precipitar logo em sua estreia e opta apenas por levar o carro até o fim, a duas voltas de Rindt, que venceu a prova com meio segundo de vantagem sobre Brabham, que liderou até a última curva, quando ficou sem gasolina. Ao parar o carro, Emerson se dividia entre a alegria de estrear na Fórmula 1 e a dor. É que, com o esforço causado pela deteriorização do câmbio, uma cãimbra terrível fez com que ele não conseguisse soltar as mãos do voltante.

Nesse dia, uma nova página se abria e a história do Brasil no automobilismo mundial começava a ser reescrita.

Para saber mais sobre o GP da Inglaterra:

- Report
- Volta a volta

Créditos das Fotos: © LAT Photographic e Rainer Nyberg