Os fãs mais antigos da Fórmula 1 sabem que a temporada de 1985 foi marcante para os alemães, da mesma forma que a de 1994 foi para nós, brasileiros. No meio daquele campeonato, enquanto Alain Prost e Michele Alboreto travavam uma luta pelo título, a Alemanha sentia o duro golpe de perder dois de seus pilotos em menos de um mês. O primeiro deles, há exatos 25 anos: Manfred Winkelhock.Manfred fez muito mais do que protagonizar a famosa série de capotagens acidente Fórmula 2 em Nürburgring, no começo dos anos 80, de onde saiu sem nenhum arranhão. Embora não tenha tido grandes resultados em sua carreira no automobilismo, era um piloto extremamente rápido e audacioso, cuja principal característica em seu estilo era extrair sempre o máximo que seu equipamento lhe permitia. Na Fórmula 1 não foi diferente, e não demorou muito para que seu estilo atraísse os observadores mais atentos.
Nascido em 6 de outubro de 1951, na pequena cidade de Waibligen, próximo a Stuttgart, Manfred Winkelhock começou sua vida profissional trabalhando duro como eletricista especializado em caminhões e mecânico. Mas desde aquela época, o automobilismo já atraía sua atenção, levando-o competir algumas nos finais de semana, em provas de subida de montanha.
O início nas pistas
Mesmo para um piloto dos anos 70, sua carreira nas pistas começou tarde, aos 24 anos, quando passou a correr na Copa Volkswagen Scirocco, onde obteve quatro vitórias e o título de campeão. Foi o suficiente para que, em 1977, passasse a correr pela equipe junior da BMW, tendo Eddie Cheever e Marc Surer como companheiros de equipe. Ao final da temporada, terminou em terceiro na classificação geral, com uma vitória em Hockenheim.
No ano seguinte, passou a correr de monopostos, disputando o campeonato europeu da Fórmula 2, mas a falta de experiência custou caro e Manfred terminou o ano apenas na nona posição, com um pódio e 11 pontos na classificação geral. O ano só não foi de todo ruim por conta das duas vitórias que conquistou no Campeonato Alemão de Turismo, de onde saiu campeão e que disputava paralelamente à Fórmula 2.
Em 1979, a sorte veio com tudo, mas nas disputas com carros de turismo, somando três vitórias e um terceiro lugar nas 24 Horas de Le Mans. Nesse mesmo ano, Manfred continuou na Fórmula 2, onde obteve mais alguns pódios, pela equipe Cassani Racing.
Em 1980, ainda na Fórmula 2, ocorre aquele que é considerado o momento mais marcante de sua carreira no automobilismo. Foi no desafiante circuito de Nürburgring, quando Manfred perde o controle de seu carro, danifica o assoalho e, com isso, levanta voo em plena pista - provocado pelo efeito-solo também presente nos carros da Fórmula 2 daquela época -, indo parar direto nos guard-rails, depois de seis incríveis capotagens.
Na Fórmula 2, incrível e famosa sequência de capotagens em Nürburgring.
Para surpresa de quem viu o acidente pela TV ou estava no circuito acompanhando tudo de perto, o piloto tedesco saiu do carro andando, como se nada tivesse acontecido. O único incidente foi um acesso de vômito sofrido por Manfred horas depois de ter visto a cena pela TV. Este acidente, junto com as mortes de Gilles Villeneuve e Riccardo Paletti dois anos depois, fez com que os carros-asa fossem proibidos pela FIA, em 1983.
Os altos e baixos na Fórmula 1
Ainda em 1980, tenta se classificar para o GP da Itália de Fórmula 1, na equipe Arrows, substituindo o compatriota Jochen Mass. Mas o fraco motor Cosworth, que começava a dar sinais de declínio com a chegada dos motores turbo à categoria, impediu que Manfred conseguisse se classificar para a corrida. Por hora, o sonho da Fórmula 1 terminava ali.
Manfred ainda disputou mais uma temporada da Fórmula 2 e no Alemão de Turismo em 1981, até que, no ano seguinte, finalmente retorna à Fórmula 1, com um contrato assinado com a ATS, graças ao apoio da BMW, fornecedora dos motores turbo da equipe naquele ano.
Em 1980, tentativa frustrada de estreia na Fórmula 1, no GP da Itália.
A temporada não foi das melhores, e apesar de algumas boas classificações no grid, seu melhor resultado foi um quinto lugar em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Era sua segunda corrida na Fórmula 1. Mas os resultados nunca eram os esperados. Quando o problema não era o motor, eram a pouca experiência e os erros de Manfred que cobravam seu preço, como aconteceu em Detroit, ao rodar e abandonar a prova depois de apenas cinco voltas.
Para complicar a situação da ATS (ou de qualquer outra equipe pequena), o sexto lugar obtido em Imola não resultou em nada. Manfred fora desclassificado, pois seu carro tinha o peso mínimo abaixo do exigido pelo regulamento.
Em 1983, Manfred continua na ATS, com mais experiência e mais confiança, mas as coisas não saem como ele esperava. O carro, totalmente construído em fibra de carbono, era pouco confiável, deixando o piloto muitas vezes parado no acostamento, faltando poucas voltas para o final das provas. No ano seguinte, corre novamente pela ATS, contra a vontade do chefe, Hans Gunther Schmid, que teve de mantê-lo na equipe por pressão da BMW. A situação se repetiu: bom desempenho nos treinos e resultados pífios durante as corridas.
A bordo da ATS, durante os treinos em Brands Hatch.
Com a chegada do austríaco Gerhard Berger ao time, Manfred não vê outra saída senão deixar a ATS antes do final da temporada, uma vez que dificilmente a equipe conseguiria pôr no grid dois carros em condições iguais de disputa. Naquele mesmo ano, chegou a fazer alguns testes com a Zakspeed e, em Portugal, correu pela Brabham, terminando a prova na décima posição.
Em 1985, seu destino seria a RAM, que naquele ano iria correr com os fraquíssimos motores Hart. O resultado não poderia ser outro e Manfred passou a marcar presença nas últimas posições. Isso quando não abandonava as provas.
Em Silverstone, tentando a sorte mais uma vez, agora pela RAM.
De volta às provas de Turismo
Com chances mínimas de continuar na Fórmula 1 no ano seguinte, e já sem garantias do apoio da BMW, Manfred decide voltar às provas de turismo ainda em 1985, assinando com a equipe alemã Kremer Motorsport, pela qual passaria a disputar o Mundial de Marcas, a bordo de um Porsche 962, ao lado de Marc Surer. Foi aí que sua sorte começou a mudar, quando, aos poucos, tornou-se um dos principais pilotos da categoria, o que ficou comprovado ao vencer os 1000 Km de Monza, na Itália.
No Canadá, foi a vez de disputar os 1000 km de Mosport. Manfred assumiu o volante na segunda hora da corrida, depois de a equipe ter feito o reparo de uma avaria na suspensão traseira esquerda, após um acidente sofrido por Surer no começo da prova. Na segunda curva do circuito, o piloto alemão passa reto, a 230 km/h, em direção ao muro de concreto, destruindo completamente o lado direito do carro. A causa do acidente nunca foi esclarecida, com as suspeitas caindo sobre uma provável falha nos freios.
Equipes atendem Winkelhock após o acidente em Mosport, no Canadá.
Foram necessários cerca de 40 minutos para que a equipe de socorro tirasse Manfred do carro, inconsciente e com ferimentos na cabeça e nas pernas. Levado de helicóptero para o Hospital Sonnybrook, o piloto foi operado na mesma noite em função de uma hemorragia cerebral.
A situação tornou-se ainda pior nas horas seguintes, levando Surer a entrar em contato com a família de Manfred, pedindo para que deixasse a Alemanha e seguisse para Toronto imediatamente. No dia seguinte, 12 de agosto, horas após a chegada de seus familiares ao Canadá, Manfred Winkelhock foi declarado morto, privando o automobilismo alemão e a Fórmula 1 de um dos pilotos mais queridos do grid.
Em 2007, 22 anos após a morte de Manfred, seu filho, Markus, então substituto do holandês Christijan Albers na Spyker, surpreendeu e emocionou muita gente na Fórmula 1. Foi durante o GP da Europa, em Nürburgring, quando Markus se aproveitou de uma chuva repentina e liderou a corrida durante seis voltas. Um feito do qual seu pai certamente teria muito orgulho.
A participação emocionante de Markus Winkelhock na Fórmula 1.
Para saber mais:
- Manfred Winkelhock no Motorsport Memorial
- Manfred Winkelhock no Grand Prix
* Créditos das Fotos: Imagens extraídas do Flickr e do perfil de Markus Winkelhock no Facebook. Os autores são desconhecidos.











Jornalista, carioca e desde 2005 vivendo em São Paulo. Acompanha a Fórmula-1 desde o final dos anos 70. Hoje, faz questão de recordar os melhores momentos da principal categoria do automobilismo mundial.



2 comentário(s):
Comecei a acompanhar a F1 na década de setenta, quando era um garoto ! Me lembro de Manfred !! Foi uma volta ao passado... me trouxe grandes lembranças !!
sds
What a good blog you have, you really know about F1. Google translation is not very accurate but good enough.
Keep up the good work!
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