quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Takachiho Inoue: de pernas para o ar

Vindo de uma experiência fracassada na Simtek, em 1994, depois de abandonar o GP do Japão daquele ano na terceira volta, Takachicho Inoue queria a todo custo tirar proveito da popularidade da Fórmula-1 em sua terra natal. E foi pensando assim que, com a ajuda de alguns patrocinadores locais, não hesitou em desembolsar 4,5 milhões de dólares por um lugar na Arrows para disputar a temporada de 1995.



Piloto pouco expressivo, Inoue vinha fazendo uma péssima temporada, com resultados bem abaixo do esperado. Em Mônaco, conseguiu algo inimaginável até então. Nos treinos livres, ao ser rebocado para os boxes com o motor apagado, teve sua Arrows atingida pelo safety car e foi arrastado por alguns metros pela pista, mas de cabeça para baixo. Por conta disso, virou motivo de piadas durante todo o fim de semana.

Mal sabia ele que, três meses depois, faria parte de um dos momentos mais bizarros da história da Fórmula-1 e que gerou as famosas fotos que ilustram este post. Foi no GP da Hungria, exatamente no dia 13 de agosto, quando Inoue precisou abandonar a prova na 13ª volta com um princípio de incêndio no motor de seu carro.

No desespero para tentar apagar o fogo com um extintor, Inoue não percebeu a aproximação do carro da equipe de socorro, sendo atropelado e jogado sobre o capô, de pernas para o ar. Segundos depois, um dos fiscais que assistiram à cena preferiu cuidar do incêndio do carro, ignorando completamente o pobre piloto.

O acidente não foi grave. Inoue teve a perna esquerda levemente ferida e, duas semanas depois, estava de volta ao grid para disputar o GP da Bélgica. Mas certamente deixou a Hungria como protagonista de uma das cenas mais cômicas daquela temporada.

* Créditos das Fotos: Autor desconhecido (Fonte: F1 Rejects)

Entrevista: Divina Galica

A aniversariante de hoje é a inglesa Divina Mary Galica, que em 1976 tornou-se a terceira mulher a integrar o circo da Fórmula-1 ao tentar se classificar para o GP da Inglaterra, em Brands Hatch, a bordo de um velho Surtees TS16.

Isso foi o suficiente para chamar a atenção de todos ao seu redor, entre pilotos, chefes de equipe, fãs e imprensa. Afinal, pela primeira vez na história, a Fórmula-1 contava com a participação de duas mulheres em uma mesma corrida. A outra era a italiana Lella Lombardi, que em 1975 tornara-se a única mulher a pontuar na categoria, ao terminar em sexto no GP da Espanha.

Mas o fraco desempenho de seu carro impediu que Divina conseguisse um lugar no grid. Dois anos depois, mais duas tentativas fracassadas na Argentina e no Brasil puseram um fim ao sonho de correr na Fórmula-1. A partir daí, passou a correr regularmente em diversas categorias, experimentando desde carros esporte até caminhões.

O que pouca gente sabe é que, além de piloto, Divina foi também uma excelente esquiadora, chegando a participar de quatro edições dos Jogos Olímpicos de Inverno, nos anos 60, 70 e 90. Hoje, faz parte da diretoria da iRacing.com, empresa especializada no desenvolvimento de simuladores de corrida.

Estes e outros detalhes de sua história você poderá conferir agora na entrevista exclusiva que ela concedeu ao Almanaque da Fórmula-1.

Quando começou seu interesse pelo automobilismo e quem te ajudou a dar os primeiros passos nesse esporte?

Tudo começou em 1974, quando fui convidada a participar de uma corrida de celebridades em Oulton Park, disputada com Ford Escorts. Terminei a corrida em segundo lugar e o John Webb, que na época era o administrador de Brands Hatch, me viu correr naquele dia e então me convidou para disputar uma prova contra as melhores pilotos daquela época na Inglaterra. E terminei novamente em segundo. Foi aí que ele decidiu que valeria a pena eu treinar para que me tornasse piloto profissional. Ele me ajudou bastante nesse sentido e também a encontrar alguns patrocinadores.

Poucas pessoas sabem que sua carreira esportiva teve início em provas de esqui e que você chegou a participar de algumas edições dos Jogos Olímpicos de Inverno. Com base em sua experiência, você diria que existe alguma semelhança entre as exigências do esqui e as do automobilismo?

Sim, claro. O tipo de trajetória que se faz em cada curva são bem similares, mas acho que cada um desses esportes exige precisão e um bom equilíbrio.

Divina Galica na disputa dos Jogos Olímpicos de Sapporo, no Japão (1972)

Como você descreveria sua primeira experiência ao pilotar um carro de corridas?

Fiquei bastante surpresa em ver o quanto os pilotos eram agressivos dentro da pista, mas foi muito divertido.

Em 1972, após sua participação nos Jogos Olímpicos de Sapporo, no Japão, você se tornou Membro da Ordem do Império Britânico. Poderia explicar o quanto esse dia foi especial para você?

É sempre uma grande honra encontrar a Rainha Elizabeth. Nesse dia, ela demonstrou estar muito bem informada sobre a prática do esqui. Foi um momento incrível, não só para mim como também para minha mãe, que me acompanhou até o Palácio de Buckingham.

Ao investir no automobilismo como segunda opção de carreira, você experimentou diversas categorias, como o kart, os carros esporte e os caminhões, e rapidamente chegou à Fórmula-1. Quando isso aconteceu, em algum momento você pensou nas dificuldades que poderia ter pelo fato de você ser uma mulher disputando um esporte predominantemente masculino?

Na verdade, a maioria dos pilotos me ajudou bastante e era divertido estar com eles. Os jornalistas é que foram mais críticos em relação a mim, principalmente quando tentei me classificar nas duas primeiras provas de 1978, com um Hesketh. Era um carro terrível, mas a imprensa preferiu não levar isso em consideração.

Recentemente, a Maria Helena Fittipaldi me disse que naquela época a Fórmula-1 era um ambiente mais amigável. Você chegou a sofrer com algum tipo de machismo por parte de pilotos, mecânicos ou chefes de equipe?

Ela está certa. Naquele tempo, havia uma grande atmosfera na Fórmula-1 e eu nunca me senti ofendida ou algo desse tipo. Pelo contrário. O Emerson, por exemplo, foi um dos que me ajudaram bastante, assim como o Niki Lauda e o John Watson.

E quanto à imprensa e os fãs?

A imprensa inteira queria me entrevistar quando estive na Argentina e no Brasil, em 1978. Todos os dias, eram cerca de dez entrevistas, o que me deixava exausta. E os fãs queriam sempre tirar fotos comigo. Era divertido, mas também muito cansativo.

Tecnicamente, o quão difícil era a Fórmula-1 para um piloto estreante naquela época?

Em 1978, a maior dificuldade era se classificar com mais de 30 pilotos tentando o mesmo a cada corrida para disputar 24 vagas, sendo que pelo menos quatro deles não conseguiam.

Como você recebeu o convite para tentar disputar o GP da Inglaterra de 1976, fazendo sua estréia na Fórmula-1?

Eu já competia com um Surtees TS16 em provas locais na Inglaterra. Como a corrida ia ser disputada em Brands Hatch, o John Webb novamente me ajudou nisso.

E por que você não tentou se classificar novamente? Disputar o restante da temporada não estava em seus planos?

Essa tentativa de disputar o GP da Inglaterra em 1976 foi mais um golpe publicitário para divulgar a corrida do que algo mais sério. O carro era muito antigo, o motor tinha um comando de válvulas muito longo e nem era muito rápido.

Depois de passar um ano correndo em provas locais na Inglaterra, você tentou novamente a Fórmula-1 em 1978, com a equipe Hesketh, mas não conseguiu se classificar na Argentina nem no Brasil. O que deu errado dessa vez?

O Hesketh 308E também era um carro obsoleto e, como eu disse antes, havia muitos bons pilotos que não conseguiam se classificar para as corridas.

Na Argentina, a bordo do Hesketh 308E, em sua segunda participação na Fórmula-1

Qual foi o momento que você considera o melhor de sua carreira como piloto, antes ou depois da Fórmula-1?

Foi em 1976, quando quase venci uma corrida em Donington Park e bati o recorde da pista. Terminei a prova em segundo, atrás do Tony Trimmer. No mesmo ano, larguei na primeira fila em uma corrida em Brands Hatch e liderei a prova até um dos meus pneus começar a formar bolhas.

Em 1992, você voltou a disputar provas de esqui nos Jogos Olímpicos de Albertville, na França. O que te levou a voltar às suas origens?

Apesar de estar com mais de 40 anos naquela época, eu queria provar que estava em plena forma. E fiquei bastante surpresa quando fui selecionada para representar a Inglaterra pela quarta vez em uma Olimpíada.

E agora, trabalhando na iRacing.com, o que exatamente você faz lá?

Sou responsável pelos acordos com os circuitos e cuido das especificações de cada pista enquanto as reconstruímos e as disponibilizamos para os membros da iRacing.com.

Você acredita que um dia os fãs poderão ver novamente uma mulher competindo na Fórmula-1?

Tenho certeza de que isso poderá acontecer.

Como você analisa a Fórmula-1 hoje, levando em consideração a batalha entre a FIA e a Fota e, infelizmente, a saída precoce de algumas equipes depois de tão pouco tempo, como foi o caso da Honda e, mais recentemente, da BWM-Sauber?

Os problemas com os gastos para manter uma equipe na Fórmula-1 sempre irão existir. Mas acho que o nível de competitividade continuará o mesmo, assim como o interesse dos torcedores.

* Créditos das Fotos: Lee Chapman Racing e Research Racing