quarta-feira, 14 de outubro de 2009

1975: a maior glória de Pace

Para a temporada de 1975, José Carlos Pace pôde, finalmente, ter um carro competitivo em suas mãos, capaz de lhe dar condições reais de vitória. Em entrevista concedida à revista Quatro Rodas pouco antes do início do campeonato, o velho Môco definiu o Brabham BT-44 em poucas palavras: "É um carro que anda bem, mesmo sendo regulado de maneiras diferentes". Isto, de certa forma, lhe daria uma boa vantagem em qualquer tipo de pista, em certos casos sendo necessária apenas uma alteração na parte aerodinâmica.


As mudanças vieram logo na primeira etapa do campeonato, na Argentina, com Pace largando em segundo e Carlos Reutemann, seu companheiro de equipe, em terceiro. Jean-Pierre Jarier (Shadow) era o pole. Ao abandonar a prova a seis voltas para o final, com o motor estourado, Pace comentou: "O importante é ter andado entre os primeiros. Espero ter mais sorte no Brasil."

Pois em Interlagos, palco de duas históricas vitórias de Emerson Fittipaldi, a sorte de Pace viria da melhor forma possível. E se para os torcedores brasileiros esta corrida teve um sabor especial, para o bicampeão Graham Hill ela foi o marco de toda uma vida. Sem que ele soubesse, seria no Brasil que viria sua despedida da Fórmula-1.

A corrida

Nos treinos, Jarier marcou novamente o melhor tempo, seguido de Emerson (McLaren), Reutemann, Niki Lauda (Ferrari), Clay Regazzoni (Ferrari) e Pace. Na largada, Reutemann assumiu a ponta, seguido por Jarier. Pace vinha logo atrás, depois de largar de forma espetacular, ultrapassando Emerson e ganhando posições sobre Lauda e Regazzoni entre as curvas 1 e 2, pelo lado externo da pista.

Com pneus errados, Reutemann perde a liderança para Jarier na quarta volta e cai para segundo. Nove voltas depois, é a vez de Pace ultrapassar o piloto argentino e começar a abrir vantagem. Enquanto isso, Jarier segue firme na primeira posição, impondo um ritmo forte ao seu Shadow, a ponto de percorrer as curvas 1 e 2 sem tirar o pé do acelerador e assim abrir mais de 20 segundos de vantagem sobre Pace.

Foram 19 voltas intensas, mas apontando para um resultado previsível, uma vez que Pace decidiu não se arriscar e manteve o mesmo ritmo para garantir ao menos um pódio. Até que a sorte que ele tanto pedira na Argentina caiu em seu colo. Na 32ª volta, Jarier é obrigado a abandonar a prova com problemas no motor. A torcida, ao avistar a Brabham de Pace contornando a Curva do Sargento, sem sinal de Jarier, começa a vibrar.

Com larga vantagem sobre Emerson, que vinha em segundo, Pace lidera as oito voltas restantes com toda a cautela do mundo, mas já sentindo a maior emoção de sua vida, conforme diria mais tarde. Nas últimas voltas, seu carro perde os freios e Emerson começa a se aproximar. Controlando o carro até o fim, Pace recebe a bandeira quadriculada ao mesmo tempo em que a torcida explode de tanta alegria. Emerson chega em segundo, formando a primeira dobradinha brasileira na Fórmula-1, e Jochen Mass (McLaren) completa o pódio em terceiro.

Ao parar o carro nos boxes, Pace foi literalmente arrancado do cockpit. No caminho para o pódio, foi cercado por uma multidão formada por membros de sua equipe, fãs, policiais e jornalistas. Sofrendo com o calor absurdo daquele dia, desceu o macacão até a cintura, em uma atitude completamente espontânea, escondendo assim as marcas de seus patrocinadores diante dos fotógrafos e das câmeras de TV.

Acostumado a poucas palavras durante as entrevistas, nesse dia Pace soltou o verbo e declarou, sob forte emoção: "Foi muito duro e difícil, mas eu precisava conquistar esta vitória, minha primeira na Fórmula-1, e dedico a todos aqueles que me incentivaram, à torcida brasileira e, especialmente, à minha mãe, que nunca me negou afeto. Acabo de realizar um sonho."







* Crédito da Foto: © LAT Photographic

4 comentário(s):

Daniel Médici disse...

Finalmente tive tempo de ler os três últimos posts. Muito legais as descrições, com muitos informações que me eram desconhecidas, como as boas largadas de Pace. Acho que nunca chegaremos a uma conclusão sobre quem foi o primeiro piloto na F1 a fazer as curvas 1 e 2 de pé embaixo. Já ouvi vários nomes, inclusive Jarier e Jochen Mass.

Cezar Fittipaldi disse...

O primeiro piloto a fazer as curvas 1 e 2 do velho Interlagos flat foi o grande Ronnie Peterson.

Alexandre Carvalho disse...

Eu também já li em várias fontes que o autor da façanha foi o Jarier, mas não duvido nem um pouco que o Peterson tenha tido essa honra primeiro. Para ele isso seria mais do que natural.

Arthur Sene disse...

Realmente mais uma grande história com grandes personagens!! Ganhar já deve ser muito foda....no Brasil então...e sendo brasileiro...pqppp!! Por isso é e sempre será a maior glória do Pace!!! Sem contar a dobradinha de brasileiros que é algo sensacional e do qual pelo jeito padeceremos por um longooooo tempo (infelizmente!!).