quarta-feira, 14 de outubro de 2009

1974: Emerson vira rei em Interlagos

Depois de amargar um décimo lugar na Argentina por puro descuido, ao desligar acidentalmente a ignição do carro, Emerson Fittipaldi, agora correndo pela McLaren, chega ao Brasil sentindo uma pressão quase que insuportável, resultante do assédio dos fãs e da imprensa. Um perigo mortal para a concentração de qualquer piloto que um dia se veja correndo em casa, diante de uma torcida ensandecida. Para Emerson, não seria diferente, embora, nesse caso, a pressão também fosse uma dose a mais de incentivo.


A atmosfera de Interlagos na Fórmula-1 dos anos 70 era bem diferente da que conhecemos nos dias de hoje. Naquela época, uma cena bastante comum era ver os torcedores mais jovens chegando ao autódromo no meio da semana e lá acampando até o dia da corrida - algo inimaginável hoje em dia.

Desfrutando de todas as liberdades inerentes à pouca idade, a molecada seguia um ritual único: não pagar pelo ingresso, pular o muro, passar as noites em sacos de dormir e se alimentar de sanduíches até o domingo, ignorando até mesmo as idas ao banheiro para não perder o lugar. Banho? Só mesmo igual àquele proporcionado pelo Corpo de Bombeiros na etapa de 1973. Definitivamente, assistir de perto um GP de Fórmula-1 naquela época era coisa para macho.

A corrida

Emerson e Carlos Reutemann (Brabham) dividiam a primeira fila do grid, seguidos por Niki Lauda (Ferrari) e Ronnie Peterson (Lotus) na segunda fila. Na largada, Reutemann e Peterson assumem a liderança da prova antes de completarem a primeira volta, com Reutemann em primeiro, deixando Emerson na terceira posição, à frente de Clay Regazzoni (Ferrari). Na quarta volta, sofrendo os efeitos do verão brasileiro, Reutemann perde rendimento e cai para o terceiro lugar ao ser ultrapassado por Peterson e Emerson.

Durante 11 voltas, Peterson e Emerson travaram uma dura batalha pela liderança da prova até a 16ª volta. Nesse momento, os dois líderes estavam prestes a dar uma volta sobre Arturo Merzario (Frank Williams Racing), quando Emerson aproveitou a oportunidade para também ultrapassar Peterson e assumir a primeira posição. Três voltas depois, um pneu furado obrigou Peterson a fazer um pit stop, levando-o a perder várias posições e assim ceder o segundo lugar a Regazzoni, com Jacky Ickx (Lotus) em terceiro.

A oito voltas para o final, uma forte chuva começa a cair sobre Interlagos e a prova tem de ser interrompida por questões de segurança. Emerson é declarado o vencedor, novamente levando o público ao delírio, como fizera um ano antes, e reforçando ainda mais sua condição de ídolo nacional.

"Eu mostrava aos patrocinadores, aos mecânicos, à Goodyear e à Ford Cosworth que havia grandes possibilidades de vencermos o campeonato se continuássemos trabalhando bem", relata Emerson em sua autobiografia Uma Vida em Alta Velocidade.

Regazzoni e Ickx completaram aquele histórico pódio, em segundo e terceiro, respectivamente. José Carlos Pace (Surtees), o único brasileiro na prova além de Emerson, largara em 12º e por pouco não chegou ao pódio, terminando em quarto, depois de uma excelente corrida.

Depois de vencer pela segunda vez em casa, diante de sua torcida, Emerson passou dois dias comemorando com o staff da Texaco e da Phillip Morris, principais patrocinadores de sua equipe. E teve a certeza de que fizera a escolha certa ao trocar a Lotus pela McLaren.



* Crédito da Foto: © LAT Photographic

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