Maria Helena em frente ao caminhão da Lotus, em Zolder, na Bélgica (1973)Quais foram as principais amizades que você fez enquanto acompanhou a Fórmula-1?
O Carlos Reutemann e a esposa dele, a Mimicha, eram muito amigos nossos. Mas tinha dias em que o Carlos passava por nós e nem cumprimentava. E em outros ele vinha, abraçava e beijava. Ele era uma pessoa diferente, mas sempre o admirei muito. A Mimicha era muito amiga também, assim como o Ronnie Peterson e o Clay Regazzoni e todos os outros. Que sorte eu tive naquela época, porque eu posso dizer que todos eram amigos.
Você ainda mantém contato com essas pessoas?
Bem pouco. Eu ainda vou à Fórmula-1 em Interlagos de vez em quando, ainda vejo alguns chefes de equipe, mecânicos que viraram chefes de equipe e jornalistas. O Jacques Laffite eu vejo todo ano e o Jochen Mass também. Mas a gente se vê, se abraça, se beija e depois só se encontra novamente no ano seguinte. Mas chega uma hora que isso acaba. Depois da Fórmula-1, a única coisa que eu fiz foi montar um campeonato para mulheres pilotos durante três anos. Foi a primeira vez no mundo que tivemos um campeonato completo desse tipo. Só que aqui a coisa é muito machista e quando eu ia pedir patrocínio diziam que mulher tinha que pilotar um fogão e não um carro. Foi complicado. Até hoje me pedem para fazer isso de novo, mas não dá mais.
E o Teddy Mayer, que infelizmente faleceu no começo deste ano? Como ele era como chefe de equipe e como pessoa?
O Teddy era maravilhoso. Ele era um homem muito quieto, mas fazia um trabalho fantástico. Foi idéia dele de batizar meu filho com o nome Jayson. A gente estava procurando alguma coisa que terminasse com son, para combinar com Emerson e Wilson. Tínhamos pensado em Jefferson, mas o Teddy sugeriu Jayson. Nem pensei duas vezes. Eu o adorava, assim como a esposa dele, a Sally. O filho deles (Tim Mayer) trabalhou com o Emerson durante muitos anos nos Estados Unidos também. O Teddy era uma pessoa maravilhosa. Um chefe de equipe fantástico e muito respeitado.
Emerson e Maria Helena desfilam nas ruas de São Paulo após a conquista do primeiro títuloAnalisando hoje a história da Copersucar, muitas pessoas percebem que a imprensa deu pouca ou nenhuma credibilidade ao projeto por causa da falta de resultados. Com isso, o Emerson acabou sendo crucificado também. Na sua opinião, o que deu errado e o que poderia ter sido feito para que a história fosse diferente?
Não acho que foi culpa da imprensa, e sim do governo. Vendo uma pessoa como o Emerson Fittipaldi, que levou o nome do Brasil lá fora e ganhou dois campeonatos mundiais, o governo deveria ter sido mais inteligente e deveria ter ajudado. E eu só ponho a culpa no governo, porque a Copersucar tinha tudo para dar certo, desde o desenhista até o engenheiro. E tinha também o know-how do Emerson, como piloto e mecânico. O problema era a falta de dinheiro e as dívidas, pois o projeto deixou muitas dívidas. Se o governo tivesse ajudado, como é feito em outros países, teríamos até hoje uma equipe brasileira, made in Brazil. Foi uma pena, porque tinha tudo para dar certo.
Pouco antes de a equipe fechar, o envolvimento do Emerson era cada vez maior e isso acabou coincidindo com o fim de seu casamento. Nessa época pós-McLaren, como foi conviver com o Emerson piloto e com o Emerson dono de equipe?
Para mim, a segunda fase foi melhor porque eu não tinha mais um marido correndo, o que era muito bom. Mas como eu disse antes, o Emerson era muito meticuloso e muito empenhado no trabalho dele. Mas depois de alguns anos isso fica impregnado na pessoa e por isso ele não sabia lidar com o fato de ter que ficar em casa. E as coisas também já não estavam indo bem e hoje, graças a Deus, ele é meu melhor amigo.
Tenho amizade também com a Teresa e agora com a Rossana. A Teresa até costuma brincar dizendo que eu sou a Fitti-1 e ela a Fitti-2. E a Rossana, que é a mais nova, é a Fitti criança (risos). Não temos animosidade nenhuma, pelo contrário. E a minha separação do Emerson foi tão tranqüila que as pessoas levaram seis meses para saber. Não houve nenhum alarde, com jornal, essas coisas. Quando todo mundo soube, não era mais notícia. E foi tudo muito bem resolvido. Eu fiquei bem, ele também, cada um foi para o seu lado e continuamos amigos até hoje.
Nessa fase final você ainda curtia o ambiente das corridas ou já tinha chegado a um limite, vendo que era hora de parar e acabar com tudo?
Ah, sem dúvida. Chega uma hora que desgasta, pois tira toda a sua vida "normal", embora estar casada com um piloto não seja uma vida normal. As crianças ficam em casa, metade do coração fica com as crianças e a outra não quer ir com o marido para as corridas. E eu ia a todas as corridas e testes. No começo, com as crianças pequenas, era fácil porque eu as levava junto comigo, mas depois que iam para a escola ficava complicado. Mas eu ia com o Emerson sempre, por causa do risco.
Ou seja, caso acontecesse alguma coisa você preferiria estar lá junto dele.
Sem dúvida. Uma das poucas vezes em que não fui, porque uma das crianças estava doente e com febre, foi quando aconteceu o acidente do Niki Lauda, em Nürburgring, e ele se queimou todo. No domingo, fui passear com as crianças no lago. Na volta para casa, eu liguei o rádio e estavam dizendo que tinha acontecido um acidente horrível, com fogo, envolvendo o Emerson Fittipaldi e o Niki Lauda. Imagine como eu fiquei. Eu estava desesperada e não sabia para onde telefonar, pois não era fácil como hoje. Eu ligava para os jornais e eles também não sabiam. Só fiquei sabendo do que aconteceu à noite, quando o Emerson ligou e disse: "Oi, tudo bem?". E eu falei pra ele: "Como assim tudo bem? Eu quero saber se você está bem!". Aí eu contei o que houve e ele ficou sem jeito, porque achou que eu estivesse assistindo a corrida pela televisão, quando na verdade eu tinha saído com as crianças. Mas foi um susto e foi uma das poucas corridas em que eu não fui, a não ser quando eu tive bebê. E mesmo assim, levava e dava de mamar na pista (risos).
Encerrada a fase da Copersucar e a separação, como foi se acostumar à vida fora do ambiente das corridas e das viagens constantes?
Depois de 13 anos nesse meio e de repente não está mais, então você sente, é claro. Mas com o Copersucar, quando o Emerson deixou de pilotar e passou a ser apenas chefe de equipe, a transição foi mais amena. Quando nos separamos, ele estava correndo apenas de superkart aqui no Brasil. Ele só foi morar nos Estados Unidos quando já estava com a Teresa.
Maria Helena e o neto Marco, um dos filhos de Tatiana e Max PapisVocê teve a sorte de não ter nenhum dos filhos seguindo a carreira de piloto. Em compensação, dois de seus netos, Pietro e Enzo, estão competindo no kart. E aí como fica o coração de avó nessa hora? Ele é mais forte do que o coração de mãe?
É horrível, porque não estou com eles. Eu tenho orgulho e estou vendo que não tenho saída. A história se repete, né? Novamente os irmãos. E acho que o Pietro vai dar o que falar. O Enzo é porra-louca, um Villeneuve (risos). Esse não tem medo, já capotou e fez muitas outras coisas. Ele é completamente pirado, mas é muito bom. Só que ele não tem medo, e o problema é que precisa ter medo. Já o Pietro é como o avô, o professor. E eu sempre falo que, depois do Emerson, meu piloto favorito sempre foi o Prost, que para mim era um gênio. Sempre foi um piloto pelo qual tive muita admiração pelo jeito de ele pilotar e acho que o Pietro está entre os dois.
Você acha que eles vão seguir esse caminho ou é apenas uma fase?
Se dependesse de mim, eles virariam padres, mas pelo que eu estou vendo, acho que o Pietro vai seguir carreira de piloto, sim. Nas competições ele é sempre o mais novo, está sempre ganhando, indo muito bem e é muito determinado e consciente, maduro até demais para a idade dele. E nada foi forçado. Disso eu tenho certeza absoluta. Quem o ajudou muito nesse aspecto foi meu genro, o Max. Ele foi uma pessoa muito importante na vida do Pietro.
Quais são as melhores lembranças que você guarda dos tempos em que conviveu com o Emerson nas pistas de todo o mundo?
O fato de ter tido o privilégio e a honra de ter sido casada com o Emerson, que para mim era um dos melhores pilotos que já existiu. Aprendi muita coisa com ele. Aprendi a ser meticulosa e a ser cuidadosa, porque você aprende muita coisa com essas pessoas especiais que são os pilotos. Conheci também muita gente interessante e legal, com as quais fiz boas amizades. Essas são as principais lembranças que eu guardo até hoje.
Quanto às viagens, no começo, eu podia estar em qualquer país que não fazia diferença. Mas no final, quando o Emerson era dono de equipe, dediquei todas as sextas-feiras para conhecer os países que antes eu não tinha conhecido. Qualquer país em que a Fórmula-1 estivesse, eu aproveitava para conhecer as cidades e os museus, pois antes era uma frustração muito grande, já que eu vivia na pista.
Leia também:
- Entrevista com Maria Helena Fittipaldi - 1ª parte
* Créditos das Fotos: Fittipaldi Fan e Max Papis
Jornalista, 37 anos. Acompanha a Fórmula-1 desde o final dos anos 70, quando Emerson Fittipaldi corria pela Copersucar. Hoje, faz questão de recordar os melhores momentos da principal categoria do automobilismo mundial.



6 comentário(s):
Sensacional, Alexandre. Tive um curto contato com a Maria Helena na época do campeonato feminino e fiquei com uma boa impressão dela. Isso se confirmou na entrevista. Abração! (LAP)
Minha querida Maria Helena, voce esta nmaravilhosa na entrevista, sempre sincera e meiga com todos os fatos. O SEU SUCESSO É PRÓPRIO, A SUA LUZ É PRÓPRIA. Parabéns pela linda família. Beijão - Malu Antikadjian
Caramba, Alexandre, estou sem palavras. Não consegui parar de ler as duas partes da entrevista. Parabéns!
Fantástico Alexandre!
Essas suas entrevistas estão excelentes, parabéns.
Que cada vez mais você possa nos proporcionar bons momentos de leitura como este.
Abração,
Rianov
Parabéns, uma entrevista digna de uma grande dama. E como diz a música "ah se todas fossem iguais a você...."
Continue o bom trabalho.
Olá Alexandre, gostei muito da entrevista, muito boa e completa, deu bem para ver como o ambiente era fraterno naqueles saudosos anos, manda mais!!
Um Grande abraço
Pedro Costa
Portugal
http://maniadcarrinhos.blogspot.com/
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