quarta-feira, 8 de julho de 2009

Entrevista: Maria Helena Fittipaldi - 1ª parte

A entrevista que você vai ler agora é com uma pessoa que continua presente até hoje na memória de quem acompanhou uma das fases mais românticas da história da Fórmula-1. Trata-se de Maria Helena Dowding. Para os fãs, a eterna Maria Helena Fittipaldi, primeira mulher do bicampeão Emerson Fittipaldi.

Figura sempre presente em cada corrida, tornou-se rapidamente uma das mulheres mais conhecidas nas pistas de todo o mundo, graças a seu imenso carisma, pouco comum em um ambiente competivivo como o do automobilismo. Por isso, sem querer acabou até lançando moda ao adotar aquela que seria sua marca registrada na Fórmula-1 dos anos 70: o inesquecível chapéu preto - imediatamente copiado e usado pelas outras mulheres do circo.

Aproveitando a proximidade de seu aniversário, comemorado hoje, conversei com Maria Helena na semana passada para saber um pouco mais sobre a época em que ela correu o mundo acompanhando a Fórmula-1, ao lado de Emerson, com quem foi casada durante 13 anos. Dona de uma simpatia incrível, com muito bom humor ela falou sobre os bons momentos vividos naquela época, os amigos que ficaram e os que se foram, a paixão dos netos pela velocidade, entre outras coisas. Tudo isso você confere a partir de agora, na primeira parte da entrevista.

Como foi o início de sua vida com o Emerson?

Ele ainda não era tão conhecido, o que só aconteceu depois que ele ganhou o campeonato da Fórmula 3 Inglesa e aí começaram a vê-lo um pouco mais. Nessa época, quando ele voltou ao Brasil, é que nós nos conhecemos, em 1969, e casamos em três meses, em Norwich, onde ficava a sede da Lotus. Para nós, tudo isso foi o começo, o primeiro passo de um piloto brasileiro que logo em seguida ganhou uma corrida em Watkins Glen e ajudou o Jochen Rindt a ser campeão post-mortem. No início, não foi fácil. A gente deu duro.

E como você vê o fato de ser considerada a primeira-dama do automobilismo brasileiro?

Eu acho muito legal, pois naquele tempo eu fazia tudo que os pilotos têm hoje. Eu era manager, relações públicas, assessora de imprensa e ainda fazia cronometragem, pois na minha época não era nada computadorizado. Hoje, as mulheres enfeitam os boxes, mas na minha época elas trabalhavam.

Eu li uma vez que isso aconteceu porque o Colin Chapman não gostava de ver ninguém desocupado nos boxes e aí tratou de te arrumar uma função na equipe.

No meu caso nem foi isso, e sim porque é um saco, para ser sincera. Tinha o fato de eu estar apavorada por ver o marido correndo e também porque o Emerson era muito meticuloso. Ele era o primeiro a chegar na pista e o último a sair. Depois de três dias, era tudo muito cansativo. A gente chegava do aeroporto e ia direto para o hotel. No dia seguinte, bem cedinho, íamos para a pista. Depois, voltávamos para o hotel e era assim até acabar a corrida e irmos para casa. Então, não tinha nada de glamuroso. Era trabalho duro, para ele que estava correndo e para quem estava na pista acompanhando. Não era aquela coisa maravilhosa que todo mundo imagina.

Ou seja, é assim no começo, mas depois acaba caindo na rotina.

Mais ou menos. Porque não existe rotina quando se tem a preocupação de ver seu marido correndo, pois a cada corrida você não sabia se ia voltar pra casa junto com ele ou voltar sozinha, para ser bem dramática, porque havia sempre um risco. Era um risco calculado, mas ele existia, porque naquela época não tinha toda a segurança que tem hoje. Pelo contrário, não tinha nada.

Antes de conhecer o Emerson, você tinha algum interesse por corridas de carros ou isso só aconteceu depois que vocês se conheceram? Como era a Maria Helena antes da Fórmula-1?

Eu estudei a vida toda fora do Brasil, porque meus pais são ingleses e naquela época era moda mandar os filhos para estudar na terra natal. Quando voltei ao Brasil, fui trabalhar em uma agência de turismo e, dois anos depois, conheci o Emerson. Mas nesse tempo, alguma coisa devia estar no ar. Não que eu acompanhasse as corridas. Eu não via nada, mas no dia em que fiz 18 anos, minha madrinha me deu um carro e, por incrível que pareça, era um Interlagos Berlineta. Ele pertenceu a uma mulher que ia correr nas Mil Milhas de Interlagos, mas ela sofreu um acidente e então o Interlagos Berlineta foi colocado à venda. Esse foi meu primeiro carro e foi minha paixão, o que é incrível, porque eu não tinha nada a ver com corridas nem conhecia o Emerson. Foi o destino mesmo.

Meu segundo carro foi um Karmann-Ghia, e foi aí que conheci o Emerson, que nessa época tinha uma fábrica de volantes. E ele, querendo ser todo charmoso, me convenceu a pôr um volante novo no carro. Quando saí da fábrica, na primeira curva eu bati o carro, porque o volante era pequeno e o carro ficou muito tinhoso. Fiquei muito brava e por causa disso acabei pedindo o outro volante de volta.

Quando você voltou à Europa para morar com ele, como foi se adaptar a uma fase em que a grana era curta e você tinha de cuidar da casa?

Eu já estava acostumada a morar fora do Brasil. Então, essa parte eu não estranhei, ainda mais porque no primeiro ano fomos morar na Inglaterra, onde eu já tinha estudado. Para mim, era como estar em casa, embora eu sempre diga que, apesar de ter mãe e pai ingleses, o coração e a alma são brasileiros. Por mais que eu ache a Inglaterra maravilhosa, o Brasil é mil vezes melhor. Quanto às corridas, no começo foi um choque, porque ele começou a correr de Fórmula-2 e logo em seguida foi convidado para correr de Fórmula-1. A transição foi brutal, porque a velocidade era uma loucura. Era sempre um medo, uma preocupação.

E aí você foi viver uma vida completamente diferente daquela que você tinha no Brasil...

Sim, porque quando ele não estava correndo, estava testando o carro. E para ele, que era muito meticuloso, tudo tinha que ser absolutamente perfeito. Então havia o medo e também o tédio. Era uma vida muito solitária, por incrível que pareça. Depois, eu até disse pra ele que uma das maiores razões pelas quais a gente se separou foi a solidão, porque o Emerson era tão profissional, tão perfeito no que fazia, que ele não tinha muito tempo para ficar em casa.

Para você ter uma idéia, no dia em que nós casamos, fomos ao cartório em Norwich. Estávamos junto com meu irmão, que estudava na Inglaterra, mais o Wilsinho, a Suzy e dois amigos (Chico Rosa e Carlo Gancia). Depois, fomos almoçar em um restaurante que pertencia a um brasileiro que era casado com uma japonesa, e mais tarde eles foram testar, enquanto eu e a Suzy fomos lavar roupa. Esse foi o dia do meu casamento, porque no dia seguinte a gente já ia viajar para uma corrida. E tudo era contado. A gente andava muito de carro, porque era tudo muito caro, especialmente na Inglaterra. Era dureza, com cada moeda contada, até ele se integrar à Lotus. Aí as coisas foram melhorando.

Emerson e Maria Helena comemorando a vitória no GP da Inglaterra, em Brands Hatch (1972)

Na Fórmula-1 dos anos 70, os acidentes eram muitos e a segurança era mínima. E a cada 15 dias havia sempre a possibilidade de um piloto morrer. Como você e as mulheres dos outros pilotos conviviam com essa situação, sabendo que poderiam se transformar em viúvas ou sentir a dor de ver um amigo desaparecer de repente?

Isso aconteceu muitas vezes. Perdemos muitos amigos, especialmente o Ronnie Peterson, que era muito amigo nosso, e outros pilotos também. O Graham Hill, que era nosso ídolo e um amigo também. Mas graças a Deus vivi com o Emerson naquela época, quando tudo era mais humano, mais família. Hoje em dia, é cada um por si, ninguém se fala. É um olhando torto para o outro. Eles não se misturam.

Na minha época, se não estava fazendo cronometragem, estava junto em algum canto, conversando. Aprendi a jogar gamão com o Colin Chapman, fazia campeonato com o James Hunt, que jogava gamão também. E eu adorava jogar e adoro até hoje. Era todo mundo muito mais amigo. Rival só na pista, mas fora da pista todo mundo fazia parte de uma grande família. Igual a um circo, que vai mudando e todo mundo vai junto, desde jornalista até dono de equipe, mecânico, piloto, mulher ou namorada de piloto.

E quando acontecia uma coisa dessas era um abalo que pegava todo mundo de surpresa...

Pra mim, o pior foi com o Ronnie Peterson, porque a Barbro, a esposa dele, não foi para a corrida em Monza. E o dr. Rafael Grajales, que era o médico particular do Emerson, estava acompanhando o Ronnie quando ele teve o acidente. Daí ele ligou pra gente dizendo: "Olha, é melhor vocês virem aqui porque o Ronnie está indo embora." Quando chegamos ao hospital, o Ronnie já tinha morrido. Ele tinha quebrado as pernas no acidente e decidiram operá-lo, mas depois teve uma embolia e morreu durante a madrugada. Aí o Bernie Ecclestone me pediu para eu ir ao aeroporto e contar à Barbro que o Ronnie tinha falecido. Foi um negócio horroroso, que não tem descrição. Eu não precisei falar nada, pois quando ela me viu entendeu logo que estava tudo acabado.

Na sua época, o mundo da Fórmula-1 chorou a morte de diversos pilotos, como o próprio Ronnie, além de François Cevert, Roger Williamson e Helmuth Köinigg. Nos bastidores, como ficava a cabeça de todo mundo nessas horas?

Era como perder um membro da família. Era uma dor muito forte, porque para os pilotos era um companheiro, um amigo, e para as mulheres era o marido de uma das amigas. E éramos muito unidas naquela época. Por isso, eu acho que era pior, porque naquela época a gente sempre se falava, ia ao motorhome do outro, enquanto hoje em dia ninguém conversa e tem pouco contato com o outro.

Veja o caso do meu genro, o Max Papis, que é casado com a Tatiana e corre na NASCAR. A NASCAR hoje é muito mais próxima da Fórmula-1 daquela época do que hoje em dia. A NASCAR é uma família. Um piloto pode estar puto com o outro dentro da pista, querendo se pegar, porque é uma competição e só um ganha. Mas eu fui ver meu genro correr algumas vezes e fiquei impressionada com esse senso de família. Naquela época era assim também. Então, era uma dor como se tivesse perdido alguém da família e a solidariedade era muito maior.

Quando você começou a perceber o quanto era duro o ambiente da Fórmula-1?

No começo, nós éramos novos no meio, mas o Emerson teve uma escalada muito rápida e, de repente, éramos as crianças que estavam entrando no mundo dos adultos, de uma forma muito mais rápida do que imaginávamos. E pessoas como o Colin Chapman eram extremamente frias, como hoje em dia é a Fórmula-1. O Colin já era assim naquela época. Primeiro, porque vem aquela famosa expressão: The show must go on, o show tem que continuar. Não dá para parar. Eles têm que pôr alguém no lugar porque tem patrocinador e mais um monte de coisa que faz parte de uma equipe. É difícil, é duro, mas tem que continuar, senão não tem mais Fórmula-1.

O Colin Chapman, para mim, foi um dos piores. Ele era um gênio para os carros, mas como pessoa era um mercenário. Era uma pessoa extremamente dura e fria. Ele ficou assim depois que perdeu o Jim Clark, que era a paixão dele. E quando o Jim Clark morreu em Hockenheim, o Colin virou um gelo. Ele levou um susto e acho que sofreu tanto com a morte do Clark que, depois disso, decidiu não fazer mais amizade com piloto.

Tratava apenas como um empregado...

Como um empregado que estava ganhando salário: "Senta lá e faz o trabalho". Mas eu ainda acho que naquela época era muito mais amigável do que hoje, em que tudo é robotizado e frio. Ainda sou da opinião de que na época do Emerson é que tinha piloto de verdade. Hoje é tudo robô. Se você olhar o volante de um Fórmula-1 hoje e o carro com toda a tecnologia, que não existia na época do Emerson até pouco antes de ele parar... Antes era apenas o piloto, o pé e a cabeça.

*** Confira agora a segunda parte da entrevista.

* Créditos das Fotos: Fittipaldi Fan (Maria Helena Dowding) e A. Wirz (Emerson e Maria Helena)

8 comentário(s):

Xis disse...

Mais lado B impossível !

parabéns mais uma vez, bom esse resgate da história, bacana a parte do Chapman, muito bom mesmo

Rianov Albinov disse...

Que sensacional!!!

Parabéns Alexandre!, vou fazer um post no F1 Nostalgia e indicar para cá.

Ta demais essas entrevistas, e claro também, parabéns a dona Maria Helena, feliz aniversário!

Abraços e no aguardo da parte 2

Speeder_76 disse...

Simplesmente sensacional, caro Alexandre. E nem sabia que ela faz anos três dias antes de mim! Quem diria...

Jobson Mendes disse...

Ótima entrevista, Parabéns Alexandre.

Legal a forma que ela citou a NASCAR.
E relatou sobre o Jim Clark e o Colin Chapman.

Muito bom!

tbarbosabento disse...

Realmente ótima essa entrevista, podemos ver de modo claro o lado corrida e bastidores do automobilismo, além de conhecermos um pouco mais dessa mulher fantastica.

SALOMA disse...

Alexandre, muito boa a lembrança e a entrevista. Show de bola...e parabéns pelo niver Maria Helena!

Rodella disse...

Bacana a entrevista...

Te add no meu twitter @drmatolas.

Edson Gomes disse...

Simplesmente incrivel Alexandre...me fez voltar no tempo...tempo esse que eu cobria o automobilismo em jornais do ABC, quando conheci a Maria Helena Fittipaldi, isso foi no GP Brasil de l975 ou 76,não me lembro bem....meus sinceros parabéns pela entrevista e um beijão na primeira dama do automobilismo brasileiro.
Edson Gomes

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