quinta-feira, 11 de junho de 2009

Os 60 anos de Tom Pryce

Nos anos 70, quando a Fórmula-1 começava a atingir altos índices de audiência nas transmissões de TV em todo o mundo, havia uma espécie de imposto macabro a ser pago a cada temporada. A explicação é simples: naquela época, de cada grupo de pilotos que disputava um campeonato, pelo menos três ou quatro, em média, perdiam a vida tragicamente nas pistas. E foi graças a essa estranha combinação entre o perigo e a negligência com a segurança que o galês Tom Pryce, infelizmente, passou a fazer parte de uma triste estatística.

Nascido em 11 de junho de 1949, na cidade de Ruthin, no País de Gales, Thomas Maldwyn Pryce era o segundo filho de uma enfermeira e de um ex-membro da Real Força Aérea Britânica . Seu interesse pelo automobilismo surgiu aos 10 anos, ao dirigir sozinho uma pequena van de propriedade da família. Ciente de que o futuro do filho estava nas corridas, sua mãe ainda tentou convencê-lo a estudar mecânica de tratores como garantia, caso sua trajetória nas pistas não tivesse sucesso.

Pryce iniciou sua carreira no automobilismo em 1970, ao vencer o Daily Express Crusader Championship, a bordo de um Lotus 51 usado pela Formula-Ford. A partir daí, passa a disputar corridas em diversas categorias, como Fórmula Super V, Fórmula-3 e Fórmula Atlantic, sendo campeão em 1971 na Fórmula F100. Ao apostar suas fichas na Fórmula-2, obteve um dos melhores resultados de sua carreira até então, terminando a etapa de Norisring, na Alemanha, em segundo lugar, depois de ter liderado boa parte da prova, vencida por Tim Schenken, seu companheiro de equipe na Motul Rondel Racing, de propriedade de Ron Dennis.

A carreira na Fórmula-1

Tom Pryce a bordo do UOP-Shadow, em 1976

Em 1974, Pryce realiza fez sua estréia na Fórmula-1 pela novata Token, disputando o Daily Express International Trophy, em Silverstone, que não contou pontos para o campeonato. Foi o mais lento dos 16 pilotos que disputaram a prova, que abandonou depois de 15 voltas, com problemas no câmbio. Considerado inexperiente para disputar o GP de Mônaco, Pryce não se deixou abalar e correu pela Fórmula-3 na mesma pista, a bordo de um March 743 da equipe Ippocampos, vencendo com extrema vantagem.

Nesse mesmo ano, assina com a Shadow, estreando pela equipe no GP da Holanda, em Zanvoort, mas um acidente com o alemão Hans-Joachim Stuck o levou a abandonar a prova na primeira volta. O primeiro ponto na Fórmula-1 veio no GP da Alemanha. No final do campeonato, terminou em 18º lugar, empatado com Vittorio Brambilla e Graham Hill.

Em 1975, obteve sua única vitória na Fórmula-1, durante a Corrida dos Campeões, outra prova sem validade para o campeonato. Pryce ainda obteve bons desempenhos nessa temporada, largando na primeira fila na Inglaterra e em Mônaco, além de conquistar seu primeiro pódio, terminando em terceiro no GP da Áustria. Na Alemanha, terminou em quarto, quase sem combustível, que começou a vazar nas últimas voltas. Foi o suficiente para conquistar o Troféu Rouge et Blanc, concedido aos pilotos mais combativos na pista. Encerrou a temporada com oito pontos, na décima colocação.

No ano seguinte, terminou em terceiro no GP do Brasil, obtendo ainda resultados razoáveis na Alemanha e na Holanda. Mas as alterações no regulamento, que exigiam das equipes mudanças radicais em seus carros, fizeram com que a Shadow perdesse muito de sua competitividade ao longo daquele ano.

O fim repentino

Em 1977, os resultados da Shadow não foram o que Pryce esperava. Na Argentina, largou em nono e abandonou na 45ª volta, com problemas no câmbio. No Brasil, largou em 12º e abandonou novamente, na 34ª volta, com uma falha no motor. Na África do Sul, foi o mais rápido nos treinos em pista molhada, onde sempre obtinha melhor desempenho. Já em pista seca, a realidade veio à tona e ele se vê obrigado contentar-se com o 15º lugar no grid. Na largada, cai para o último lugar, mas na 18ª volta já era o 13º colocado.

Três voltas depois, seu companheiro de equipe, Renzo Zorzi, pára no acostamento da reta principal com um princípio de incêndio. Imediatamente, dois fiscais atravessam a pista para ajudar o piloto italiano. Um deles era Frederick Jansen van Vuuren, um holandês de 19 anos que trabalhava como emissor de passagens no Aeroporto Internacional de Joannesburgo.

A essa altura, Stuck, Pryce, Jacques Laffite e Gunnar Nilsson já se aproximavam do local do acidente. Ao passar pela lombada da longa reta de Kyalami, Stuck conseguiu desviar a tempo de Vuuren, mas Pryce, que vinha logo atrás, não teve a mesma sorte ao atropelar violentamente o jovem fiscal.

Sepultura de Tom PryceO que se viu a partir daí foi uma das cenas mais horripilantes já transmitidas durante uma corrida. Com o impacto, o extintor que Van Vuuren carregava acertou em cheio a cabeça de Pryce, arrancando-lhe o capacete e matando-o na hora. Seu carro ainda seguiu pela reta completamente desgovernado até atingir a Ligier de Laffite, na entrada da curva Crowthorne. O piloto francês não teve nenhum ferimento, mas sofreu o horror de ver o colega morto dentro do cockpit, com o rosto totalmente desfigurado. Quanto a Van Vuuren, seu corpo foi despedaçado de tal forma que o reconhecimento só pôde ser feito depois da corrida, por exclusão.

Este era um dos preços a serem pagos pela junção da imprudência com o amadorismo que reinava na Fórmula-1 dos anos 70. Após o acidente, a viúva de Pryce, Nella, travou uma batalha de três anos até conseguir dos administradores do circuito de Kyalami uma indenização por terem contratado um amador para trabalhar como fiscal de pista.

Naquele dia, 5 de março de 1977, o automobilismo mundial perdeu um de seus mais promissores pilotos, que aos poucos foi conquistando o respeito de todos na Fórmula-1. Seu corpo está enterrado na cidade de Otford, na Igreja de São Bartolomeu, a mesma onde Pryce e Fenella haviam se casado dois anos antes.

5 comentário(s):

Alexander Rowlands disse...

Fala, meu!!! Cara... acho que faltou só uma revisão: reveja o trecho "Ao apostar suas fichas na Fórmula-2, correndo pel Foi aí ". Assim que arrumar, avise-me!!!

Um abraço!

Alexandre Carvalho disse...

Obrigado, Alex. Na verdade, eu estava reeditando um texto antigo meu para publicar esse post e só agora vi que esse trecho saiu truncado. Mas já fiz a correção. Valeu pelo toque.

William disse...

Pelas imagens que vi no youtube foi feio o acidente dentre todos o pior , muita infelicidade o cara atropela o fiscal eo extintor acerta a cabeça do piloto . realmente muita má sorte .

AcidBytes disse...

Realmente um dos acidentes mais bizarros da F1 e um dos mais terríveis também. Parabéns pelo texto e por lembrar o nome do bombeiro, a maioria dos que contam o fato não citam o nome do bombeiro.
Parabéns cara.

Bruno Santos disse...

Mais um que teve o aniversário encoberto pelo evento de 1939...rsrs. Pryce era realmente muito veloz e atingiu um bom status dentro da Shadow.
Que no início de 76 perdeu o patrocínio da UOP e também por isso a queda no rendimento.
Estranho que o acidente do Zorzi foi uma coisa bem pequena, não era tanto fogo assim, o piloto estava fora do carro. Não precisavam atravessar a pista daquele jeito, como disse, foi realmente amador. Após o impacto, o pé de Pryce continuo pisando no acelerador, numa das cenas mais tristes da Fórmula 1.
Abraço.