quinta-feira, 30 de abril de 2009

Roland Ratzenberger: 15 anos depois

Roland RatzenbergerEm 1986, a principal categoria do automobilismo esportivo via pela última vez um de seus pilotos morrer em função de um acidente nas pistas. Foi quando o italiano Elio de Angelis perdeu o controle de sua Brabham BT55 durante testes particulares em Paul Ricard, na França, e morreu um dia depois.

Mas há exatos 15 anos, quando ninguém esperava, o fantasma da morte decidiu cobrar novamente seu preço. E na tarde do dia 30 de abril de 1994, durante os treinos de classificação para o GP de San Marino, em Ímola, a Fórmula-1 perdia não só mais uma batalha contra o perigo, mas também o jovem austríaco Roland Ratzenberger.

Nascido em Salzburgo, em 1960, Ratzenberger alimentou desde criança sua paixão pelos carros. O interesse precoce era tanto que, aos quatro anos, era capaz de reconhecer a marca de qualquer automóvel que passasse em frente à sua casa. O gosto pela velocidade e pelas competições não demorou a chegar, e Roland acompanhava as corridas com atenção, especialmente quando havia algum piloto austríaco na disputa. Não foi à toa que, aos 10 anos, Roland desabou em lágrimas ao ouvir pelo rádio as primeiras notícias da morte de seu ídolo, Jochen Rindt, durante os treinos para o GP da Itália, em Monza.



Seu pai, Rudolf, bem que tentou afastá-lo das pistas, mas não teve jeito, e Roland não sossegou até alcançar, em 1994, o maior objetivo de sua vida, sua maior paixão: a Fórmula-1. Em uma entrevista publicada em 1999 na revista F1 Racing inglesa, Rudolf fez uma simples constatação ao ser questionado sobre a escolha profissional do filho: "Se ele tivesse optado por se tornar um jogador de tênis, talvez ele não tivesse a mesma satisfação, certo?". Sábias palavras.

A realização de um sonho

Na Fórmula-1, infelizmente a passagem de Ratzenberger durou pouco - apenas uma corrida, em Aida, no Japão, onde terminou em 11º lugar. Antes disso, Roland não se classificara em Interlagos, e fazia em Ímola sua terceira tentativa de garantir um lugar no grid.

Para ele, Ímola era um lugar especial, pois foi justamente ali que realizou seu primeiro teste com um carro de Fórmula-1, o que lhe garantiu um lugar na pequena Simtek para disputar cinco corridas, pagas com dinheiro do próprio bolso, acumulado durante os anos em que correu na Fórmula-3000 Japonesa.

Lembro até hoje de tudo o que aconteceu naquele 30 de abril que poucos fãs da Fórmula-1 esquecem. Só fiquei sabendo do que acontecera à noite, depois de um dia de trabalho, quando pus para rodar a fita que deixara preparada durante a manhã. Depois do susto do dia anterior, quando Rubens Barrichello sofrera o terrível acidente que quase lhe custou a vida, o inesperado aconteceu e veio o acidente na Curva Villeneuve, repentino e fatal.

Até então, desde que comecei a acompanhar as corridas, em 1978, só havia tido uma noção exata do quanto esse esporte é perigoso ao ouvir as notícias da morte de De Angelis. Antes disso, dois pilotos que cheguei a ver em atividade haviam morrido em acidentes em Grandes Prêmios: Gilles Villeneuve e Riccardo Paletti, ambos na temporada de 1982. A pouca idade, no entanto, se encarregou de que eu não desse a menor atenção para esses acidentes naquela época.


As imagens da cabeça inerte de Ratzenberger e o capacete sujo de sangue não deixavam dúvidas: algo muito grave tinha acontecido. E pela segunda vez eu voltava a ter uma incômoda sensação, ao perceber que a Fórmula-1 estava prestes a dar adeus a mais um de seus astros. Acompanhando a dramática encenação de socorro ao piloto austríaco, lembro de ter comentado com minha mãe que, apesar de tudo, a corrida seria disputada e, por essa razão, outro piloto iria morrer (obviamente, sem ter a menor idéia de quem seria o escolhido da vez). O resto, como se sabe, é história.

Leia também:

- Homenagem a Roland Ratzenberger (GP Total)

* Créditos das Fotos: Sutton Images e Getty Images

14 comentário(s):

Bruno Santos disse...

incrível como me espanto comigo. A morte do Ratzenberger na minha inocente infância foi totalmente deixada de lado assim que o Senna morreu. Uma tremenda injustiça, sem dúvida, mais uma vítima daquele final de semana negro.
Infelizmente a F1 tem isso, mesmo com morte, a corrida não é cancelada. Talvez seja o único esporte que isso acontece...
Abraços.

Cezar Fittipaldi disse...

Conheci o Roland em 86 quando ambos competiamos na Formula Ford inglesa, e ele andava muito apesar de não ter grana para nada. As vezes dormia dentro de seu carro de rua para economizar a grana de hospedagem. Senti muito a sua morte, pois era um sujeito decente, batalhador. Bela lembrança.

Henry disse...

Alexandre,
Excelente post!

1abraço

Daniel Médici disse...

A minha lembrança do acidente do Ratzenberger foi uma não muito agradavel introdução a noções paramédicas. Eu era criança, acompanhei com os olhos vidrados o resgate, mas uma morte na Fórmula 1 me parecia um tanto inconcebível. Soube da morte dele à tarde, quando minha família me explicou que todos aqueles procedimentos médicos não tinham adiantado. Mesmo assim, só acreditei quando a informação foi passada na tv...

Fábio Andrade disse...

Estou vivendo sob os efeitos de um estado de choque retardado.

Há 15 anos eu era um moleque de 5 que não dava a mínima pra F-1. Para saber dos detalhes que hoje eu sei a respeito da vida e morte do Ayrton precisei recorrer a revistas velhas. Imagine se eu conhecia o Ratzemberger? Pra mim era apenas um cara que morreu na véspera da morte do Senna.

As postagens que eu vi pela blogosfera hoje estão sendo bem elucidativas. E chocantes. Hoje eu sou o que você era há 15 anos. Um rapaz que nunca viu a foice em ação na F-1.

O choque está vindo 15 anos depois.

SAVIOMACHADO disse...

Senna é mais lembrado por ser um piloto querido pelo povo brasileiro. Ratzenberger ainda era novato, por isso se dá pouca atenção ao piloto. Mas o fato é que houve mesmo um grande erro ao dar continuidade a corrida sem levar em conta tantos problemas relacionados a segurança. Mas enfim. Já é passado e hoje a Fórmula 1 é outra bem diferente. Mas jamais devemos esquecer daqueles que foram responsáveis por essas mudanças de hoje.
Parabéns pelo blog Alexandre. O post sobre a história de Ratzenberger ficou muito boa.
Grande abraço.
SAVIOMACHADO

Alexandre Carvalho disse...

Cezar, que interessante este seu relato. Se eu soubesse antes desse seu contato com o Roland, certamente eu teria feito uma entrevista contigo para acompanhar este post.

Alexandre Carvalho disse...

Daniel, acho que para muitos que acompanhavam a categoria já naquela época uma morte na Fórmula-1 parecia ser algo inconcebível, da mesma forma que imaginamos hoje.

Mas a busca pela velocidade a todo custo um dia sempre cobra o seu preço. Mesmo na Fórmula-1 atual eu não descarto a possibilidade de outra tragédia acontecer.

Alexandre Carvalho disse...

Oi, Fábio. Eu já tinha visto a foice em ação na Fórmula-1. A diferença é que, como na época das mortes de Villeneuve e Paletti, por exemplo, eu ainda era criança, não me pareceu algo tão chocante quanto seria hoje.

Como expus no post, o baque só veio mesmo em 1986, com o acidente do Elio de Angelis.

Tiago Wakabayashi disse...

Deu pra confirmar um pouco que já sabia: um cara esforçado. Eu não sabia que ele pagava pra correr, pensava que ele a princípio assinou um "contrato de produção" eu diria de 5 corridas mas não pensava que ele tirava do próprio bolso. E morreu na pista que para ele havia um grande significado. Chorou com a perda de Jochen.

Anônimo disse...

eu também nem ligava na época. nem o Senna eu conhecia. conheci o Roland pelo Senna, inclusive. hoje vejo o quanto Roland também foi muito importante pra f1. ele lutava com as próprias pernas, rsrs. admiro muito os dois. viva Senna, viva ratzemberguer. até um dia, "quem sabe".

Tiago Wakabayashi disse...

[b]Alexandre Carvalho disse...
Cezar, que interessante este seu relato. Se eu soubesse antes desse seu contato com o Roland, certamente eu teria feito uma entrevista contigo para acompanhar este post.[/b]

Podia fazer agopra =]

Felipe disse...

Ola meu querido

Queria saber se vc ainda tem a fita deste treino gravada. SE tiver, gostaria de saber se vc pode converte-la e me passar por email ou correio, pois procuro por muito tempo esses arquivos em Portugues.

Aguardo resposta
lipesilveira23@hotmail.com
Abraços

Alexandre Carvalho disse...

Oi, Felipe. Eu tive essa fita durante uns dez anos. Depois, joguei tudo fora, pois comecei a comprar todo o meu acervo já em DVD. Mas esse treino onde o Roland morreu eu não tenho.