quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Entrevista: Fritz d'Orey - 1ª parte

Fritz d'OreyNos últimos dias tenho trabalhado muito e o pouco tempo livre que me resta, infelizmente, não tem sido suficiente para eu escrever aqui como eu gostaria, mantendo o mínimo de qualidade necessária, com histórias curiosas e bem contadas. Isso dá um trabalho enorme, principalmente de pesquisa e checagem de informações, mas pelo menos o Carnaval está chegando e assim terei tempo de sobra para adiantar um bom material a ser publicado aos poucos.

Enquanto isso, tomo a liberdade de publicar um material já antigo mas muito interessante para quem não chegou a vê-lo no extinto F1 Tales, meu antigo blog: uma entrevista com o ex-piloto brasileiro Fritz d'Orey, em maio de 2002.

Nessa época, tive a sorte de marcar um encontro com o ex-piloto em seu apartamento, em Copacabana, onde ele me concedeu uma entrevista exclusiva para o portal Forix, do João Paulo Cunha.

Foram noventa minutos de conversa, em que ele lembrou de momentos marcantes de sua curta carreira - período em que teve a oportunidade de disputar três provas na Fórmula-1, nos anos 50 - e também dos grandes pilotos e muitos amigos que fez naquela época. Afastado das pistas desde 1960, quando sofreu um terrível acidente durante as 24 Horas de Le Mans, d'Orey nutre hoje outra paixão além do automobilismo: os computadores, sendo fã de carteirinha da marca Apple.

D'Orey disse ainda que o automobilismo que conhecemos hoje em nada se parece com a época vivida por ele, quando as corridas eram disputadas apenas pelo prazer de correr. Naquele tempo, o dinheiro era apenas uma conseqüência do que um piloto era capaz de fazer nas pistas. "Eles eram seres humanos e os carros eram vistos de perto pelas pessoas. Não é como acontece hoje".

Como surgiu seu interesse pelo automobilismo?

Desde criança, sempre gostei muito de automóveis. Nessa época eu ia sempre a Interlagos, aos sábados. Todo mundo ia para lá naquele tempo. A pista era aberta e todo mundo levava seus carros de passeio. Aos 17 anos, fiz minha primeira corrida, com um Jaguar XK. Mas minha vida de piloto durou apenas cinco anos, pois aos 22 sofri um grande acidente em Le Mans, que acabou me tirando das pistas.

Sua família o apoiava naquela época?

De jeito nenhum, porque antigamente as corridas eram um perigo mortal. Todo fim de semana alguém morria em Interlagos e não havia nenhuma segurança, nada de guard-rails.

O que movia vocês, então, era a pura paixão pelo esporte...

Sim, porque correr de automóvel era e ainda é uma sensação muito gostosa. Nem é a competição em si, mas o prazer de acelerar um carro de corridas.

O que era correr pela Ferrari naquela época, sendo você tão jovem em relação aos outros pilotos? E como ocorreu sua contratação pela equipe?

Na Fórmula-1 eu corri pela Maserati, a convite do Fangio. Foi ele quem me levou para correr na Europa, pela Scuderia Centro Sud. A British Petrolium estava patrocinando e o Fangio ia levar um brasileiro, um uruguaio e um argentino para lá. O uruguaio era o Asdrubal Fontes Bayardo, mas não me recordo do nome do argentino. Dos três, o único que correu na Formula-1 fui eu. Os outros ficaram só nos testes. Eu estava acostumado a correr com uma Ferrari 51, a mesma que o Chico Landi ganhou do presidente Getúlio Vargas para correr. Disputei algumas provas com ela e, depois disso, a Ferrari me chamou para assinar um contrato. Eu já tinha disputado os GPs da França, da Inglaterra e dos EUA antes disso, mas depois de ter assinado o contrato, disputei também as 12 Horas de Sebring e as 24 Horas de Le Mans, onde tive o desastre que acabou com a minha carreira.

As contratações eram muito diferentes da maneira como são feitas hoje? Eram para uma temporada inteira ou somente algumas provas, dependendo do piloto?

Naquela época, ninguém ganhava muito dinheiro. Havia corridas em todos os lugares, de todas as categorias, e os pilotos não ganhavam salário das fábricas, e sim prêmios de largada. Os organizadores davam uma determinada quantia de dinheiro, dependendo do prestígio do piloto, e a gente vivia com isso, que só dava para pagar o hotel, a alimentação e as viagens.

Mas e os campeões?

Mesmo um campeão não ganhava tanto como agora. Era só o prazer de correr que nos levava a continuar nessa vida. Dava para se sustentar sem precisar passar fome. Naquele tempo, os pilotos eram apenas seres humanos, os carros eram vistos de perto pelas pessoas. Não é como acontece hoje. A liberdade que tínhamos antes era total.

Já havia assédio dos fãs naquela época?

Ah, isso tinha! Antigamente, nós éramos vistos como heróis. Hoje, os pilotos são todos muito protegidos, com guarda-costas, essas coisas. Muita coisa mudou de lá para cá, mas já naquela época os pilotos tinham muitos fãs atrás deles.

E como era o perfil de um chefe de equipe nos anos 50?

Não era uma coisa profissional como agora. Ele era apenas o dono dos carros e nunca dava ordens para um piloto andar mais rápido do que o companheiro de equipe. Cada um andava o mais depressa que podia. Se cometesse algum erro, corria o risco de não disputar a corrida seguinte. Para se ter uma idéia de como as coisas eram feitas naquele tempo, o chefe de equipe chegava e dizia a um piloto: "Vai haver um Grande Prêmio em tal lugar. Você quer ir lá e correr para mim?" Então a gente perguntava de quanto era o prêmio de largada. Dependendo da grana, a gente ia lá disputar e recebia um adiantamento para bancar as despesas da viagem. Não havia contrato, era tudo um acordo entre amigos.

Dos pilotos que você conheceu quando correu na Europa, quem era o mais antipático e quem era o mais amigo?

Meu maior amigo era o Wolfgang von Trips, com quem eu morava junto, na Itália. Infelizmente, ele morreu em 61, naquele acidente em Monza, onde também morreram alguns torcedores. Os mais antipáticos, na minha opinião, eram os ingleses. O Stirling Moss, por exemplo, era uma pessoa muito desagradável, um convencido, que se achava o máximo. Já os italianos eram extremamente simpáticos. O Luigi Musso era um deles. Morreu em 58, mas eu cheguei a conhecê-lo. O Eugenio Castellotti também. Hoje, na Fórmula-1 atual, infelizmente os pilotos mal se falam.

*** Leia a segunda parte da entrevista com Fritz d'Orey

0 comentário(s):